“E agora, José?” de Drummond e nossos tempos, por Luzia Almeida
Uma definição possível de poesia precisa apresentar aspectos emocionais além de estéticos porque poesia também rima com emoção, com solidão, com paixão... às vezes, mas com dor sempre, ainda que a dor seja mascarada como a do Pessoa. A poesia pode servir como um catalizador de sentimentos e um instrumento para meios de identificação, de identidade em tempos difíceis como nos tempos do Drummond.
Vivendo um período bélico, Drummond observa seus semelhantes e traça um perfil emocional a partir da dor, da dor mais comum do ser humano: a solidão. O poeta não é um fingidor, é empático no seu olhar cheio de compaixão, talvez sendo ele mesmo o “José” que ele observa. Este José está fora de seu alcance ou ele está guardado e latejando no seu peito? Esta seria uma pergunta de retórica? Acho que não, mas também penso que por trás de “José” há muito Drummond e vida: “E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou,”. Quando a noite esfria parece que a solidão se intensifica, não sei se há algum tipo de relação entre frio e solidão, todavia “a noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, o riso não veio / não veio a utopia”, o que veio, certamente, tinha mais a ver com a distopia. “E agora, José?”
Esta pergunta permanece até hoje a ruminar uma questão indigesta. São tantos Josés brasileiros que vivem esta falta de dia, de bonde, de riso... Há uma falta generalizada de vida na vida de muitos brasileiros e o único consolo é este poema representativo de uma existência verdadeira com “v” maiúsculo. Mas, sem o dinheiro do aluguel e da condução, sem gás e “sem sobrenome” seria até uma covardia perguntar “e agora?”. “E agora” não é pergunta que se faça: ou você ajuda ou desaparece com sua pergunta que não é pão. Realmente a pergunta não é pão nem mel, a pergunta não resolve o problema, mas “Se você gritasse, / se você gemesse, / se você tocasse / a valsa vienense, / se você dormisse, / se você cansasse, / se você morresse... / Mas você não morre / você é duro, José!”. José é duro como a vida, mesmo minúscula.
Todavia, antes do “José” de Drummond existir, a resposta já estava pronta em forma de poema. Então, “A caridade”, de Augusto dos Anjos, enche de esperança, não apenas o eu lírico do poeta mineiro, mas todos os brasileiros que estão sem resposta e esperando o braço e o abraço amigo de todos nós. O investimento na empatia, na solidariedade e no amor é uma marca de civilização, é a prova de que somos seres humanos e tão humanos a ponto de estender a mão. “A caridade” de Augusto dos Anjos depõe a nosso favor e a favor do próximo: “No universo a caridade / Em contraste ao vicio infando / É como um astro brilhando / Sobre a dor da humanidade!”. Acho que isso é amor.
A poesia de Dos Anjos e de Drummond se completam, mas não absolutamente, falta, além das palavras, o compromisso humano, a ação, o levantar-se da poltrona, porque para José — morrer — não é solução... é melhor seguir de mãos dadas.
Para ler outras crônicas da Luzia Almeida, nossa brilhante colunista clique AQUI
Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI
Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.
Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!
Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp
Comentários via Whats: (48) 99162 8045
Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
Ver outros artigos escritos?
Notícias relacionadas Ver todas
21° | Nublado