Psicólogo explica sinais de dependência em bets
Acesso constante às plataformas pode favorecer o comportamento compulsivo e dificultar a percepção dos primeiros sinais
Não é o valor de uma aposta isolada nem a frequência com que alguém entra em uma plataforma que, sozinhos, determinam se existe um problema. O sinal de alerta aparece quando a aposta começa a ocupar espaço demais na rotina, interfere nas relações pessoais ou financeiras e, principalmente, quando a pessoa perde a capacidade de decidir quando parar.
O tamanho desse fenômeno ajuda a explicar por que o tema ganhou espaço no debate sobre saúde mental. Em 2025, cerca de 25,2 milhões de brasileiros realizaram apostas em plataformas autorizadas, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
As plataformas estão presentes em camisas de clubes e jogadores de futebol, redes sociais, conteúdos de influenciadores e espaços de circulação pública. Com o celular, apostar também deixou de depender de um horário ou local específico: a possibilidade de fazer uma aposta está disponível praticamente o tempo todo.
Para Filipe Colombini, psicólogo analítico-comportamental, área que atua no tratamento de ludopatia, essa combinação de fácil acesso, risco, expectativa de ganho e recompensas pode favorecer a repetição do comportamento.
“A facilidade de acesso muda bastante a dinâmica do jogo. Como ele pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento, a pessoa tende a permanecer mais tempo envolvida, muitas vezes de forma silenciosa, o que dificulta identificar quando o comportamento começa a sair do controle”, afirma.
Segundo o psicólogo, o principal ponto a observar não é simplesmente quanto ou com que frequência a pessoa aposta, mas o grau de controle que ela mantém sobre esse comportamento.
“Quando a pessoa tenta parar ou diminuir as apostas e não consegue, apesar dos evidentes prejuízos, passando a organizar a rotina em função das apostas, isso é um indicativo importante de que esse comportamento merece atenção”, explica Colombini.
Quais são os sinais de que a aposta pode ter se tornado um problema?
Um dos primeiros sinais é a preocupação crescente com a questão. A pessoa passa a pensar frequentemente nos próximos jogos, acompanhar resultados de forma excessiva ou procurar oportunidades para jogar mesmo quando deveria estar envolvida em outras atividades.
Também pode surgir a necessidade de aumentar progressivamente os valores apostados para alcançar a mesma sensação de excitação. Outro comportamento frequente é tentar recuperar o dinheiro perdido com novas apostas: o chamado “correr atrás do prejuízo”.
“Existe uma crença de que a próxima aposta vai compensar o prejuízo anterior. Esse pensamento faz com que a pessoa permaneça presa em um ciclo de perdas e novas tentativas, aumentando ainda mais o sofrimento e as consequências negativas”, afirma o especialista.
Outro sinal de alerta é quando a pessoa começa a esconder o comportamento. Omissão de gastos, mentiras sobre quanto tempo passa nas plataformas e tentativas de esconder apostas de familiares ou amigos podem indicar que ela própria já percebeu que existe um problema.
O impacto vai além do dinheiro
As consequências também não aparecem necessariamente primeiro no bolso. Mudanças no sono, irritabilidade, ansiedade, isolamento social e conflitos familiares podem surgir antes mesmo de as perdas financeiras se tornarem evidentes.
No trabalho ou nos estudos, a dificuldade de concentração e o tempo dedicado às apostas podem começar a interferir no desempenho. Em casos mais graves, dívidas e problemas financeiros podem se somar aos impactos emocionais e familiares.
“Muitas pessoas só percebem que existe um problema quando os prejuízos financeiros aparecem. No entanto, antes disso já existem sinais emocionais e comportamentais que mostram que a relação com as apostas deixou de ser saudável”, afirma Filipe.
Quem está mais vulnerável?
Qualquer pessoa pode desenvolver uma relação problemática com as apostas, mas alguns fatores podem aumentar a vulnerabilidade. “Impulsividade, histórico familiar de dependências e dificuldade para lidar com emoções são alguns deles”, indica Colombini.
O psicólogo ressalta, porém, que a presença desses fatores não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá uma dependência. Segundo ele, o mais importante é observar mudanças no comportamento e os prejuízos que começam a aparecer na vida cotidiana.
Quando é hora de buscar ajuda?
A dificuldade de interromper o ciclo de jogar compulsivamente, mesmo diante de consequências negativas, é um dos principais sinais de que pode ser necessário buscar ajuda profissional.
Para Colombini, quanto mais cedo essa mudança for percebida, menores tendem a ser os prejuízos acumulados.
“Quando as apostas começam a comprometer a saúde mental, os relacionamentos, a vida profissional ou financeira, é importante buscar ajuda especializada. A intervenção precoce reduz os prejuízos e aumenta significativamente as possibilidades de tratamento e recuperação”, afirma.
Com a expansão das plataformas e a possibilidade de apostar pelo celular a qualquer hora, identificar a perda de controle se torna ainda mais importante. “A questão, portanto, não é apenas saber quanto uma pessoa aposta, mas entender o lugar que a aposta passou a ocupar na vida dela”, completa.
Da redação
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