Por que uma pessoa se torna narcisista?
Especialista explica como diferentes fatores podem participar da formação de características narcisistas
Quando convivemos com alguém que apresenta comportamentos narcisistas, é comum surgir a dúvida sobre como aquela pessoa se tornou assim. Ela nasceu dessa maneira? Foi criada assim? Passou por situações difíceis? Recebeu atenção demais? Ou aprendeu que precisava controlar ou diminuir os outros para se sentir importante?
Segundo Nilda Lima, terapeuta e especialista em relacionamentos, não existe uma resposta única para explicar a formação de uma personalidade narcisista. Diferentes fatores podem participar desse processo, incluindo predisposição genética, ambiente familiar, experiências vividas durante a infância, modelos de comportamento e a forma como a pessoa aprendeu a construir sua autoestima e a se relacionar.
“Não existe uma resposta única”, explica Nilda. Para ela, é preciso considerar que a personalidade é resultado de uma combinação de fatores, e não consequência de uma experiência isolada.
O que existe por trás da aparência de superioridade?
Quando se fala em uma pessoa narcisista, é comum imaginar alguém extremamente seguro, convencido de sua superioridade e que acredita estar sempre certo. Entretanto, a aparência externa nem sempre representa o que acontece emocionalmente.
Pessoas com Transtorno de Personalidade Narcisista podem apresentar dificuldades relacionadas à regulação da autoestima. Nesse contexto, a necessidade constante de reconhecimento e admiração pode funcionar como uma forma de sustentar a imagem que construíram de si mesmas.
De acordo com Nilda, críticas, rejeições, fracassos ou situações nas quais a pessoa deixa de receber admiração podem ser vividos de maneira especialmente intensa. Assim, por trás de uma aparente certeza de superioridade pode existir uma autoestima muito dependente da validação externa.
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas podem buscar continuamente reconhecimento, aprovação ou sinais de que são especiais.
Infância pode influenciar?
Experiências como rejeição, negligência emocional, falta de apoio, ambientes familiares instáveis ou situações traumáticas aparecem entre os possíveis fatores associados ao desenvolvimento de características narcisistas.
Mas, segundo a terapeuta, não é apenas a falta de afeto ou reconhecimento que pode participar desse processo. O excesso também pode influenciar.
Uma criança constantemente colocada em uma posição de superioridade pode aprender que é mais especial, mais merecedora ou melhor do que as outras pessoas. Isso não significa que elogiar ou valorizar os filhos seja prejudicial. Afeto, reconhecimento e valorização são importantes para o desenvolvimento.
A diferença está na mensagem transmitida. “Existe uma diferença enorme entre ensinar uma criança a pensar ‘eu tenho valor’ e ensiná-la a acreditar ‘eu sou superior’”, destaca Nilda.
Da mesma forma, crianças que crescem acreditando que precisam conquistar amor e aprovação podem aprender desde cedo que precisam ser bonitas, inteligentes, fortes, bem-sucedidas ou excepcionais para receber reconhecimento.
Na avaliação da especialista, em determinadas pessoas essa dinâmica pode contribuir para a construção de uma identidade excessivamente dependente da maneira como são percebidas pelos outros.
Como isso pode aparecer na vida adulta?
Na vida adulta, reconhecimento, poder, status, aparência, dinheiro ou sucesso podem assumir uma função importante na manutenção da autoestima. Por isso, algumas pessoas podem sentir necessidade constante de provar quem são ou demonstrar seu valor.
Nilda também chama atenção para o aprendizado por observação. Crianças observam como os adultos lidam com conflitos, conseguem atenção, exercem poder e tratam aqueles que os contrariam.
Em ambientes nos quais manipulação, desvalorização, falta de empatia, competição constante ou necessidade excessiva de reconhecimento fazem parte das relações, determinados comportamentos podem ser incorporados como formas normais de interação.
Isso não significa, porém, que seja possível apontar uma experiência específica como responsável pelo desenvolvimento de um transtorno de personalidade.
“Não podemos olhar para uma pessoa adulta e afirmar: ‘ela é assim porque os pais fizeram isso’ ou ‘ela é narcisista porque sofreu aquilo’”, explica a terapeuta.
Duas pessoas podem passar por situações semelhantes e desenvolver personalidades completamente diferentes. Por isso, genética, experiências individuais e fatores ambientais precisam ser considerados em conjunto.
Nem todo narcisismo aparece da mesma forma
Outro ponto importante é abandonar a ideia de que uma pessoa com características narcisistas será necessariamente expansiva, arrogante ou exibicionista o tempo inteiro.
Algumas pessoas demonstram grandiosidade de maneira evidente. Outras podem apresentar sensibilidade intensa à rejeição, necessidade constante de aprovação e reações desproporcionais quando se sentem desvalorizadas.
Por isso, para Nilda, observar apenas uma aparente autoconfiança pode esconder uma dinâmica emocional mais complexa.
Compreender não significa aceitar
Para quem vive ou viveu um relacionamento marcado por manipulação, desvalorização, controle ou falta de empatia, compreender as possíveis origens desses comportamentos pode acabar criando uma armadilha emocional.
A pessoa pode começar a pensar que entende por que o outro age daquela maneira ou acreditar que, se oferecer amor e compreensão suficientes, conseguirá provocar uma mudança.
É nesse ponto que Nilda destaca a importância de separar compreensão de responsabilidade.
“Você pode compreender a história de uma pessoa e, ao mesmo tempo, reconhecer que determinados comportamentos estão machucando você”, afirma.
Para a terapeuta, o sofrimento vivido no passado pode ajudar a explicar determinados comportamentos, mas não deve ser usado como justificativa para ferir outras pessoas.
Da mesma forma, quem está em um relacionamento com alguém que apresenta esses comportamentos não precisa assumir o papel de terapeuta ou acreditar que tem a responsabilidade de consertar o outro.
E quem está ao lado?
Em uma relação marcada por sofrimento, uma das perguntas mais importantes pode deixar de ser apenas “por que essa pessoa age assim?” e passar a ser “o que essa relação está fazendo comigo?”.
Isso porque é possível passar anos tentando compreender a infância, os traumas, as carências e as dores do outro e, nesse processo, deixar de observar a própria realidade.
“Compreender o outro é importante. Mas compreender a si mesmo também é”, ressalta Nilda.
Se uma relação está destruindo a autoestima, fazendo a pessoa duvidar da própria percepção, ultrapassando seus limites ou provocando sofrimento contínuo, entender a origem do comportamento do outro não significa que seja necessário aceitar aquilo que causa dor.
A mudança, segundo a especialista, depende do reconhecimento dos próprios comportamentos, da responsabilidade pelas consequências e da disposição para buscar ajuda. E essa decisão precisa partir da própria pessoa.
Ninguém muda simplesmente porque recebeu amor suficiente de um parceiro. Entender a história de alguém pode ajudar a compreender seu comportamento, mas não transfere para o outro a responsabilidade pela mudança.
Da redação
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