Por que mulheres fortes ficam em relações abusivas?
Autonomia financeira e sucesso profissional não eliminam medos, vínculos emocionais e padrões que podem dificultar a saída
Mulheres independentes, com carreira consolidada, autonomia financeira e capacidade para tomar decisões importantes também podem permanecer em relacionamentos abusivos. Para Nilda Lima, terapeuta especialista em relacionamentos, compreender essa realidade exige olhar para além da ideia de que força, inteligência ou dinheiro seriam suficientes para romper um vínculo que causa sofrimento.
“Porque sair de uma relação abusiva não depende apenas de força, inteligência ou dinheiro”, afirma Nilda. Segundo a terapeuta, vínculos emocionais, medos, crenças, expectativas e padrões construídos ao longo da vida podem influenciar a permanência em uma relação prejudicial.
Uma mulher pode ter autonomia profissional e financeira e, ainda assim, estar emocionalmente presa ao relacionamento. Nilda explica que, em muitos casos, ser uma mulher forte não significa necessariamente saber reconhecer o momento de ir embora.
Quando cuidar do outro vira uma armadilha
De acordo com Nilda, muitas mulheres são ensinadas desde cedo a assumir o papel de guerreiras, cuidadoras e salvadoras. Elas aprendem a resolver problemas, acolher pessoas e assumir responsabilidades, acreditando que amor, paciência e dedicação podem transformar quem está ao seu lado.
Esse comportamento, embora possa ser positivo em diferentes áreas da vida, também pode criar uma dinâmica prejudicial dentro dos relacionamentos. A mulher pode encontrar um parceiro emocionalmente fragilizado, financeiramente desorganizado ou que não assume responsabilidades e acreditar que conseguirá ajudá-lo.
Aos poucos, segundo a terapeuta, ela pode deixar de ocupar apenas o lugar de companheira e passar a desempenhar funções de mãe, terapeuta, provedora ou salvadora.
“Ela não está presa ao presente. Está presa à esperança”, destaca Nilda.
Essa esperança pode estar relacionada principalmente à lembrança de como o parceiro era no início da relação. Carinho, atenção, intensidade, promessas e demonstrações de admiração podem permanecer como referência para a mulher mesmo depois de o relacionamento mudar.
Nilda observa que, nesses casos, ela pode não estar permanecendo apenas pelo homem que está diante dela naquele momento, mas pela expectativa de que ele volte a ser como era no começo.
A partir disso, surge a tentativa de recuperar aquela fase da relação. A mulher pode acreditar que, se amar mais, compreender mais, tiver mais paciência ou agir de maneira diferente, conseguirá fazer com que o relacionamento volte a ser como antes.
O familiar nem sempre é saudável
Outro fator apontado por Nilda são os padrões emocionais construídos ao longo da vida. Segundo ela, algumas dinâmicas presentes em relacionamentos difíceis podem remeter a experiências conhecidas, como rejeição, ausência, necessidade de aprovação, imprevisibilidade ou a sensação de precisar conquistar o amor do outro.
“O problema é que frequentemente confundimos familiaridade com segurança. Mas algo pode ser familiar e, ainda assim, profundamente doloroso”, explica.
Para a terapeuta, reconhecer esses padrões é importante para compreender por que determinadas relações podem ser tão difíceis de abandonar. O autoconhecimento, nesse contexto, passa pela identificação das próprias necessidades e limites.
Nilda afirma que, quando uma mulher não compreende essas questões, pode acabar repetindo relações ou dinâmicas que a machucam sem entender completamente por que continua aceitando determinados comportamentos.
Dinheiro não é a única forma de dependência
A dependência financeira é uma das razões que podem dificultar a saída de um relacionamento abusivo, mas não é a única. Nilda chama atenção para a dependência emocional, que também pode existir mesmo quando a mulher possui completa autonomia financeira.
“Ela pode administrar uma empresa, liderar equipes, sustentar uma família e tomar decisões complexas todos os dias, mas sentir um medo enorme de ficar sozinha”, afirma.
Entre os sentimentos que podem contribuir para essa permanência estão o medo de não encontrar outra pessoa, a dificuldade de recomeçar, a sensação de fracasso ou a impossibilidade de imaginar a própria vida sem aquele relacionamento.
Quando a traição vira um ciclo
As traições repetidas também podem fazer parte de relações marcadas por ciclos de ruptura e reconciliação. Nilda descreve uma dinâmica em que a mulher descobre a traição, o parceiro pede desculpas, promete mudar, ela perdoa e, depois de algum tempo, o comportamento volta a acontecer.
Para a terapeuta, perdoar é uma decisão individual, mas o perdão, sozinho, não modifica uma relação.
“Perdão sem mudança concreta de comportamento não transforma uma relação”, afirma.
Segundo Nilda, quando não existem limites claros ou consequências diante da quebra de confiança, o ciclo pode continuar. A mulher também pode acreditar que precisa ser ainda mais amorosa, compreensiva ou dedicada para que o parceiro reconheça seu valor.
A terapeuta ressalta, porém, que fidelidade, respeito e responsabilidade dependem das escolhas de cada pessoa. A mulher não precisa provar que merece ser respeitada ou receber fidelidade por meio de uma dedicação cada vez maior ao relacionamento.
Crenças que podem aprisionar
Ideias como “casamento é para sempre”, “uma boa mulher não desiste da família”, “todo casal passa por isso” e “ele vai mudar” podem influenciar a maneira como algumas mulheres enxergam seus relacionamentos.
Nilda explica que determinadas crenças podem acompanhar uma mulher por décadas e se tornar um obstáculo quando preservar o casamento passa a ser considerado mais importante do que preservar a própria integridade emocional.
Em situações que envolvem violência ou ameaça, a segurança também precisa ser considerada. Para a terapeuta, nenhuma crença sobre casamento deveria exigir que uma mulher deixe de reconhecer a si mesma para manter uma relação.
Por isso, Nilda propõe uma mudança na pergunta feita diante de uma situação de abuso. Em vez de questionar por que uma mulher continua aceitando determinada relação, seria necessário compreender o que a faz acreditar que precisa permanecer naquela situação.
Medo, filhos, dependência financeira, ameaças, crenças, esperança de mudança e padrões familiares podem estar entre os fatores envolvidos.
O que é indispensável em uma relação?
Para Nilda, também é importante que a mulher identifique aquilo que considera essencial em um relacionamento. Respeito, fidelidade, segurança emocional, reciprocidade, diálogo, admiração e companheirismo são alguns dos elementos que podem fazer parte dessa reflexão.
“Muitas mulheres sabem exatamente o que precisam entregar para que um casamento funcione, mas nunca foram ensinadas a perguntar o que precisam receber”, afirma.
Nesse processo, o autoconhecimento não significa apenas reconhecer qualidades. Também envolve compreender necessidades, estabelecer limites e identificar aquilo que não deve mais ser negociado.
Escolher a si mesma também é amor
Uma mulher pode ser extremamente competente, independente e admirada profissionalmente e, ao mesmo tempo, precisar aprender a se colocar como prioridade dentro de uma relação.
Segundo Nilda, reconhecer o próprio valor também significa deixar de interpretar pequenas demonstrações de afeto como suficientes para compensar uma relação marcada por sofrimento.
Um relacionamento saudável, de acordo com a terapeuta, não deveria exigir sofrimento permanente, medo, humilhação ou uma tentativa constante de convencer alguém a tratar a parceira com respeito.
“Ser uma mulher forte não é suportar tudo”, afirma Nilda.
Para ela, em determinadas situações, reconhecer que uma relação deixou de ser um espaço de amor e passou a representar sofrimento também pode ser uma demonstração de força.
“Escolher a si mesma também é uma forma de amor”, conclui a terapeuta.
Da redação
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