Por que é tão difícil sair de relações abusivas?
Especialista explica como a alternância entre sofrimento e carinho pode manter a mulher emocionalmente presa
“Eu sei que ele me faz mal, mas não consigo ir embora.” A frase, segundo a terapeuta Nilda Lima, é recorrente entre mulheres que vivem ou já viveram relacionamentos abusivos. Embora, para quem observa a situação de fora, pareça contraditório permanecer ao lado de alguém que causa sofrimento, a profissional explica que o rompimento não depende apenas de reconhecer racionalmente que aquela relação faz mal.
Para Nilda, existe uma diferença entre compreender intelectualmente o que está acontecendo e conseguir romper emocionalmente com o vínculo. Isso ocorre porque muitos relacionamentos abusivos não são compostos apenas por momentos de violência, mas por uma alternância entre sofrimento e afeto.
A relação pode passar por períodos de controle, desqualificação, manipulação, silêncio punitivo ou outras formas de violência emocional e, depois, retornar a momentos de carinho, pedidos de desculpas e promessas de mudança. Essa dinâmica pode alimentar a esperança de que o relacionamento volte a ser como era no início.
Entre o sofrimento e a esperança
De acordo com a terapeuta, a fase inicial de muitos relacionamentos pode ser marcada por intensidade, atenção, carinho, planos e uma forte sensação de conexão. Quando os comportamentos abusivos começam a aparecer, a mulher pode continuar esperando pelo retorno daquela versão inicial do parceiro.
Depois de uma crise, por exemplo, o homem pode pedir desculpas, demonstrar afeto e afirmar que irá mudar. Para Nilda, esse momento pode produzir uma sensação de alívio que acaba sendo confundida com amor.
É nesse contexto que pensamentos como “agora vai ser diferente” podem reaparecer. A esperança de mudança contribui para a continuidade do ciclo, que posteriormente pode voltar a envolver conflitos e comportamentos abusivos.
“Ela não sente falta apenas de quem ele é. Sente falta de quem ele parecia ser”, explica Nilda.
A terapeuta destaca que essa diferença ajuda a compreender por que o rompimento pode ser tão difícil. A mulher não necessariamente deseja retornar ao sofrimento, mas pode sentir falta da pessoa e da relação que conheceu em determinados momentos.
Quando a mulher começa a duvidar de si mesma
Mesmo depois de conseguir se afastar, outro obstáculo pode surgir: a culpa. Questionamentos como “será que eu exagerei?”, “será que deveria ter tentado mais?” ou “será que ele realmente estava mudando?” podem fazer com que ela passe a rever a própria decisão.
Segundo Nilda, nesse processo, é comum que os momentos positivos ganhem mais espaço na memória, enquanto os episódios de sofrimento sejam minimizados. Em vez de analisar o comportamento do parceiro, a mulher pode voltar a questionar a própria postura.
Esse processo pode ser ainda mais complexo quando, durante a relação, ela ouviu repetidamente que era exagerada, difícil, ingrata, desequilibrada ou responsável pelos conflitos do casal.
Para a profissional, depois de passar tanto tempo tendo a própria percepção colocada em dúvida, reconstruir a confiança em si mesma também se torna parte do processo de saída.
Recomeçar também pode assustar
Deixar uma relação abusiva não significa apenas terminar um relacionamento. Dependendo da situação, a separação pode envolver mudanças profundas na vida da mulher.
Casa, rotina, amigos em comum, vínculos familiares, estabilidade financeira, filhos e patrimônio podem estar envolvidos. Também podem existir dependência econômica, ameaças e medo da reação do parceiro.
Nilda explica que, nesses casos, até mesmo uma situação que causa sofrimento pode representar algo conhecido. E aquilo que é conhecido pode parecer menos assustador do que a perspectiva de começar uma nova vida.
Por isso, a orientação para simplesmente “ir embora” não contempla toda a complexidade de alguns desses vínculos. Em situações de violência, a separação pode exigir planejamento, rede de apoio e medidas de proteção.
O risco não deve ser ignorado
Em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios. Entre janeiro e julho deste ano, já eram 848 vítimas, segundo os números apresentados no texto-base.
Os dados não significam que todo relacionamento emocionalmente abusivo necessariamente evoluirá para violência física ou feminicídio. Da mesma forma, comportamentos associados ao narcisismo não permitem afirmar, por si só, que uma pessoa será violenta.
Para Nilda, porém, os números ajudam a mudar a forma como a sociedade encara essas situações. Em vez de concentrar a discussão apenas na pergunta “por que ela não foi embora?”, a terapeuta propõe olhar também para os obstáculos enfrentados por essa mulher e para o suporte disponível quando ela tentou sair.
Existe, segundo ela, uma diferença entre permanecer voluntariamente em uma relação saudável e estar emocionalmente presa a um ciclo abusivo. A mulher pode reconhecer que está sofrendo e, ainda assim, não conseguir romper imediatamente o vínculo.
Romper pode ser um processo
Para interromper esse padrão, Nilda aponta a importância de identificar os gatilhos que levam à reconciliação e registrar as razões que motivaram o afastamento. Reconstruir a percepção sobre si mesma e estabelecer uma rede de apoio também fazem parte desse processo.
Outro ponto destacado pela terapeuta é a necessidade de observar a relação como um todo, e não apenas os períodos de carinho que aparecem depois das crises.
“Uma relação precisa ser avaliada pelo padrão de comportamento, não pelas exceções”, afirma.
Essa perspectiva também pode mudar a maneira como familiares e amigos lidam com uma mulher que retorna para uma relação que consideram prejudicial. Segundo Nilda, o julgamento pode aumentar o isolamento justamente em um momento em que ela precisa saber que terá a quem recorrer caso decida pedir ajuda novamente.
Sair de uma relação abusiva, portanto, pode não acontecer de uma única vez. Algumas mulheres podem tentar romper diversas vezes antes de conseguirem se afastar definitivamente.
Compreender esse processo não significa normalizar a violência. Significa reconhecer a complexidade desses vínculos e criar condições para que a mulher consiga identificar o ciclo, recuperar a autonomia e buscar ajuda com segurança.
Para Nilda, recuperar a capacidade de confiar na própria percepção e contar com uma rede segura de apoio pode representar um passo importante para reconstruir a vida e preservar a própria segurança.
Da redação
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