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Pessoas inteligentes também podem cair no golpe amoroso
Solidão, luto e mudanças podem aumentar a vulnerabilidade emocional, sem relação com inteligência ou ingenuidade

Pessoas inteligentes também podem cair no golpe amoroso
Relações manipulativas podem atingir pessoas bem-sucedidas e estruturadas, especialmente em períodos de maior fragilidade emocional. (Foto: Divulgação)

Publicado em 21/08/2026

O estelionato afetivo ganhou espaço na novela das 9 da TV Globo, “Quem Ama Cuida”, ao mostrar como uma relação aparentemente amorosa pode esconder uma fraude. Na trama, Carmita, personagem de Deborah Evelyn, acredita estar vivendo um relacionamento com Edson, interpretado por Vandré Silveira. A situação muda quando ela faz um grande empréstimo bancário para o namorado e, depois disso, perde o contato com ele. A desconfiança surge quando sua amiga Fábia, vivida por Flávia Alessandra, alerta para a possibilidade de um golpe.

Embora a história seja fictícia, situações semelhantes acontecem na vida real e levantam uma dúvida recorrente: como pessoas inteligentes, experientes e bem-sucedidas podem ser envolvidas em golpes amorosos?

Para o psicólogo Filipe Colombini, não é adequado associar o estelionato afetivo a um determinado tipo de personalidade ou a uma suposta falta de inteligência. Segundo ele, o mais importante é observar circunstâncias que podem deixar qualquer pessoa mais vulnerável à manipulação.

Vulnerabilidade pode ser circunstancial

Solidão, luto, separação, mudanças significativas na vida, necessidade de estabelecer uma conexão afetiva e uma rede de apoio fragilizada estão entre os contextos que podem aumentar essa vulnerabilidade.

Isso não significa que a vítima seja ingênua, frágil ou tenha algum transtorno psicológico. Uma pessoa pode estar segura e bem estruturada em diferentes áreas da vida e, ainda assim, atravessar um período em que esteja mais suscetível a um relacionamento manipulativo ou nocivo.

É justamente por isso que a ideia de que existe um “perfil” de vítima pode ser enganosa e ainda contribuir para responsabilizar quem sofreu o golpe.

Golpe é construído aos poucos

A manipulação emocional costuma ocorrer de maneira gradual. Antes de qualquer pedido financeiro, pode existir uma etapa de aproximação em que o golpista cria intimidade, oferece atenção e demonstra interesse pelas necessidades e expectativas da outra pessoa.

De acordo com Colombini, esse processo permite que o manipulador conheça melhor a vítima e construa uma narrativa capaz de parecer convincente. O vínculo emocional, portanto, pode estar consolidado quando começam a aparecer situações que deveriam provocar desconfiança.

O envolvimento também pode dificultar a percepção das contradições. Quanto maior o investimento de tempo, afeto, expectativas e dinheiro, mais difícil pode ser admitir que a relação não era aquilo que parecia.

Por isso, na avaliação do especialista, questionar como alguém “tão inteligente” conseguiu cair em um golpe não ajuda a compreender o problema. A questão central é entender como a relação foi construída a ponto de reduzir ou contornar os mecanismos de proteção daquela pessoa.

 

 

Alguns comportamentos podem indicar o golpe

Relacionamentos que evoluem em velocidade incomum, informações difíceis de confirmar e obstáculos frequentes para encontros presenciais ou videochamadas são alguns sinais que merecem atenção.

Também podem levantar suspeitas as histórias que apresentam contradições, as emergências recorrentes e os pedidos de dinheiro. Solicitações para manter o relacionamento ou determinadas situações em segredo também devem ser observadas.

Outro ponto importante é quando a vítima começa a se afastar de pessoas próximas. Questionamentos de familiares e amigos podem passar a ser interpretados como uma tentativa de prejudicar o relacionamento, fortalecendo ainda mais o isolamento.

Nessas situações, a maneira como a família aborda o assunto pode fazer diferença. Em vez de ridicularizar ou confrontar diretamente a pessoa, o psicólogo recomenda estimular a reflexão por meio de perguntas.

Questões como o que já foi efetivamente verificado sobre o parceiro, quantos encontros presenciais aconteceram, se as histórias contadas são coerentes e por que surgem repetidamente emergências envolvendo dinheiro podem ajudar a recuperar uma análise mais crítica.

O objetivo, segundo Colombini, não deve ser ganhar uma discussão, mas preservar a conexão com a vítima e ajudá-la a avaliar a situação sem aumentar a vergonha ou o sentimento de julgamento.

O prejuízo vai além do dinheiro

Apesar de a perda financeira ser uma das consequências mais visíveis do estelionato afetivo, os impactos emocionais também podem ser profundos. Para quem sofreu o golpe, os sentimentos e os planos construídos durante aquela relação foram reais, mesmo que a identidade ou as intenções do outro fossem falsas.

Depois da descoberta, podem aparecer vergonha, culpa, raiva, ansiedade, sintomas depressivos, dificuldade para estabelecer novos vínculos de confiança e pensamentos recorrentes sobre o episódio.

Um dos efeitos mais dolorosos pode ser a perda de confiança no próprio julgamento. A vítima pode começar a questionar a própria capacidade de reconhecer em quem pode confiar.

Segundo o psicólogo, a recuperação emocional não deve partir da ideia de que a pessoa precisa deixar de confiar nos outros. O processo envolve reconstruir a confiança em si mesma e compreender que confiar não significa agir com ingenuidade.

A reconstrução também passa por estabelecer limites e manter critérios de realidade mesmo diante de vínculos afetivos. Nesse processo, diferenciar afeto de abandono da capacidade de avaliar situações concretas pode ser fundamental para recuperar a segurança emocional após o golpe.

 

 

Da redação

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