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O Meu Pequeno Papel na História, por Denise Evangelista Vieira
A partir da obra de Bertolt Brecht, uma reflexão sobre escolhas, responsabilidade e os perigos da indiferença diante das ameaças à democracia

O Meu Pequeno Papel na História, por Denise Evangelista Vieira
Ao revisitar a personagem Judith Keith, da peça “Terror e Misérias do III Reich”, de Bertolt Brecht, a autora relaciona o contexto do nazismo aos desafios atuais e reflete sobre o impacto das escolhas individuais diante da intolerância, da desigualdade e das ameaças aos direitos humanos. (Foto: Acervo pessoal)

Publicado em 21/08/2026

No finalzinho dos anos 80 tive a oportunidade de explorar uma das obras que mais marcaram o meu modo de pensar: Terror e Misérias do III Reich, do dramaturgo alemão Bertold Brecht. Eu cursava teatro na universidade estadual e, como parte da formação, nos enfronhávamos nas peças que deveríamos apresentar ao final de cada semestre. Pessoalmente, penso que um dos grandes prazeres no universo teatral, que sustentam a criação de um papel, é a pesquisa que os atores costumam fazer sobre o contexto de seus personagens.

A peça, originalmente, estreou em 1938 em Paris, com 8 cenas. Mais tarde, exilado, Brecht foi acrescentando outros esquetes, munido das notícias que chegavam, até compor um total de 35 situações da vida cotidiana alemã, daqueles anos. Posteriormente, a peça foi vista em Londres, Estocolmo e Nova York.

Como abertura para cada cena, Brecht elaborou um poema ou um comentário sobre a vida comum, sob o regime nazista. A obra mostra como a ditadura foi criando uma teia na sociedade de então, disseminando insegurança, medo, desconfiança e ruptura entre as famílias e dentro de diversos núcleos sociais.

Minha personagem era Judith Keith, no quadro intitulado A Mulher Judia. Judith, sentindo a rejeição dos amigos, o risco que corria e preocupada com a segurança do marido, um médico ariano não judeu, decide pegar um trem e ir embora do país, sem saber se conseguiria escapar das garras da polícia nazista. Na cena, telefona para aqueles, que já não estão próximos, mas a quem deseja informar que está de partida. Na sequência, a personagem está arrumando as malas e ensaiando o que vai dizer ao marido quando este chegar do trabalho, elucubrando em voz alta algo que explique sua decisão, embora nada do que pensa em falar lhe pareça adequado.

Cena após cena, esquete após esquete, Brecht vai nos mostrando a impossibilidade de sustentar escolhas éticas sob uma ditadura. Diluída ao longo da obra, essa impossibilidade também se mostra, numa parte do diálogo de A Mulher Judia, quando o marido chega e se depara com a esposa fazendo as malas.

MARIDO – Essas malas são para quê?

MULHER – Quero ir embora.

MARIDO – Que significa isso?

MULHER – Já tínhamos combinado que eu ia passar uns tempos fora; aqui as coisas
não vão muito bem.

MARIDO – É um absurdo!

MULHER – Eu fico então?

MARIDO – Quer ir para onde?

MULHER – Amsterdã. Só para sair daqui.

MARIDO – Você não conhece ninguém lá…

MULHER – Não…

MARIDO – Você quer ir embora, por quê? Se é por minha causa não há motivo
nenhum.

MULHER – Não.

MARIDO – Você sabe que eu não mudei, não sabe, Judith?

Olhando para os dias de hoje, o que nos assombra, após nos voltarmos para os anos que antecederam e que desembocaram na Segunda Guerra Mundial, é perceber que o que menos importa é o bode expiatório da vez. Nos anos 30 foram os judeus, atualmente é qualquer pessoa que fale em amor, em fraternidade, solidariedade, em inclusão, em respeito às diferenças, lute para que o bem estar social seja uma realidade, defenda a educação, como um dos mais importantes caminhos para a prosperidade nos países em desenvolvimento, defenda os direitos humanos.

É bom lembrar que o que chamamos de sociedade é essa soma das atitudes individuais, das escolhas que fazemos como pessoas e cidadãos, estando ou não em postos de poder. Não nos esqueçamos, nenhuma liderança cresce sem que tenha quem a sustente.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em dezembro de 1948, foi a resposta que a Humanidade deu às atrocidades cometidas na Segunda Guerra Mundial. Esse documento, acreditou a população mundial daqueles dias, nos protegeria de vivermos, no futuro, o horror novamente. Infelizmente, o que foi vívidamente sentido naquela data, vem se enfraquecendo na memória de uns quantos. O texto explicita que todos os seres humanos, sem exceção, têm direitos inalienáveis, independentemente de sua raça, de sua religião, de seu gênero ou de sua nacionalidade.

O escritor Gary Hoisington (1950-2024), conhecido como Gary Indiana, declarou em uma de suas entrevistas que o homem contemporâneo “normal” se caracteriza, entre outros atributos, por ser indiferente e conivente com desumanidades; portanto, cúmplice de pensamentos totalitários e anti-democráticos. Hoje, como na década de 30, há uma negação e um não enfrentamento diante das barbaridades que acompanhamos diariamente pelas mídias.

Podemos especular as razões sobre as dificuldades que temos em admitir que estamos, constantemente, sob a ameaça de revivermos os horrores das décadas de 30 e 40, do século passado. Podemos desviar desse confronto por nos sentirmos impotentes, por termos perdido a esperança na Humanidade e num futuro onde haja respeito e harmonia entre os povos. Podemos pensar que a vida tem se tornado tão exigente e estressante que não nos sobra energia para pararmos para refletir qual é o nosso pequeno papel no desenrolar da História. Entretanto, não poderemos nos isentar das responsabilidades sobre nossas escolhas.

 

 

Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.

 

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Sobre o autor

Denise Evangelista Vieira

Denise Evangelista Vieira

Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.


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