Do dicionário para o coração, por Luzia Almeida
Quando enxergar o outro se torna um ato de resistência

Depois que li a crônica “Homem no mar” de Rubem Braga envelheci dez anos. Sim, mas foi um envelhecimento cheio de dignidade e ousadia. Parece-me que os termos dignidade e ousadia não surgiram para serem sinônimos, mas eu não me importo com sinônimos.
A crônica do Rubem começa com um narrador-observador em primeira pessoa. O narrador conta o que vê: “Da minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes”. O primeiro parágrafo já é um conforto para os olhos a partir da comparação das espumas com bichos alegres e humildes. Todavia a grandeza do escritor vai muito além da comparação provocada pelas espumas no momento em que ele vê “um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes, nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele”. Até aqui a crônica já é uma montanha de felicidade com essa admiração do narrador que se envolve com esse ser humano: “Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão”. A observação do outro levou Rubem a escrever em janeiro de 1953. Já faz tempo que ele escreveu esta crônica, mas o tempo não conseguiu empregar rugas neste texto maravilhoso que alarga nossa vista de um ponto do mar, com um nadador, para homens que, no chão, precisam ser observados.
“Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos”: o “bicho” de Manuel Bandeira foi observado e ganhou destaque nas páginas dos livros didáticos de Língua Portuguesa. Diferente do “Homem no mar”, “O bicho” de Bandeira é a representação de uma classe sofredora que sem forças para lutar só lhe resta (com os olhos indiferentes da população) “na imundície do pátio” catar “comida entre os detritos”.
Homens estão ao nosso redor: uns fortes, outros fracos; uns nadando sob a doce visão do escritor, outros no lixo com o espanto do poeta: “O bicho, meu Deus, era um homem”. Homens maus e bons, sadios e doentes, fortes e fracos, felizes e tristes estão à nossa volta. E muitas vezes nos negamos a observá-los... geralmente é a nossa pressa ou o pouco tempo que dispomos para observá-los que nos levam à negligência (negligência aqui é um eufemismo).
Ao ler a crônica do Rubem envelheci dez anos e ouso falar de minha própria negligência no que se refere ao amor ao próximo e esta percepção não anula minha culpa, mas já é o começo de uma luta por empatia. Da percepção para a ação existe um caminho de pedras, mas as pedras foram feitas para serem pisadas e não enaltecidas.
Olhar para o próximo na perspectiva de Rubem Braga envolve parceria e companheirismo: “Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, [...], a esse homem, a esse correto irmão”.
Homens no mar e homens no pátio necessitam além de olhares, necessitam de um correto procedimento de seus observadores. Apoio, atenção e estima são palavras sinônimas e estão nos dicionários para serem libertadas e uma vez libertadas certamente encontrarão o caminho do coração.
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Sobre o autor

Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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