Casamento pode acabar antes do divórcio
Horários diferentes, excesso de telas e falta de diálogo podem criar distância emocional dentro da própria casa
Antes de acabar no papel, muitos casamentos acabam na rotina. Morar na mesma casa, dividir contas, criar filhos e dormir no mesmo quarto não significa, necessariamente, viver uma relação conectada. Horários desencontrados, excesso de trabalho, celular, cansaço e falta de diálogo podem criar uma distância silenciosa entre o casal.
Os sinais aparecem também nas estatísticas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrou 440.827 divórcios em 2023, alta de 4,9% em relação ao ano anterior. Quase metade ocorreu antes de dez anos de casamento.
Para a terapeuta familiar Aline Cantarelli, o afastamento costuma surgir aos poucos. O casal continua funcionando na prática, mas deixa de se encontrar emocionalmente.
“Às vezes nem se falam. O casal passa o dia inteiro sem se falar, e depois reclama da libido lá na frente”, afirma Aline.
Segundo ela, muitos casais procuram ajuda apenas quando a crise já está instalada. Mas o rompimento dificilmente acontece de repente. “‘Do nada’ não existe. Nenhum casamento entra em crise do nada”, diz.
A distância construída dentro de casa
O tempo médio dos casamentos que terminam em divórcio caiu para 13,8 anos, segundo o IBGE. Para a terapeuta, um dos fatores de desgaste é a falta de intencionalidade na vida a dois.
O casal acorda correndo, trabalha, cuida da casa e dos filhos, responde mensagens e chega ao fim do dia sem um momento real de presença. O problema pode ser ainda maior quando os parceiros trabalham em horários diferentes.
“Eles não conseguem se encontrar. A dificuldade de um casal que dorme num horário diferente, acorda num horário diferente, é real”, explica Aline.
Para ela, mais do que falta de tempo, o problema está na ausência de escolhas conscientes sobre como esse tempo será usado.
Tela, cansaço e falta de presença
O uso constante do celular também pode aumentar o afastamento. O brasileiro passa, em média, mais de nove horas por dia conectado a telas, entre celular, computador e televisão. O resultado é uma convivência em que pessoas estão fisicamente próximas, mas emocionalmente dispersas.
Esse comportamento reduz as oportunidades de conversa, escuta e conexão. “A gente tem muita informação, mas não necessariamente muito conhecimento”, observa Aline.
A terapeuta defende a retomada de hábitos simples, como conversar ao chegar em casa, fazer uma refeição juntos ou reservar alguns minutos do dia sem telas.
Os “15 minutos milagrosos”
Uma das estratégias orientadas por Aline é o que ela chama de “15 minutos milagrosos”: reservar diariamente um período curto e intencional para ficar junto, sem celular, trabalho ou distrações.
Pode ser um chá, alguns minutos no sofá ou uma conversa antes de dormir. O mais importante é a atenção dedicada ao parceiro.
“Eu só quero 15 minutos de concentração”, resume Aline. Para ela, a qualidade desse encontro importa mais do que a duração.
Sentar à mesa também cria vínculo
A refeição compartilhada também pode ajudar a recuperar a conexão. Para a terapeuta, sentar à mesa cria uma pausa na rotina e abre espaço para conversar, fazer combinados e perceber como o outro está.
“Às vezes não dá para a família garantir todas as refeições. É muito difícil, de novo, no aspecto da vida moderna. Mas garantir pelo menos uma refeição faria muita diferença”, afirma.
O hábito também pode ser importante para casais sem filhos, já que a construção da vida familiar começa na própria relação.
Intimidade começa antes do quarto
A falta de presença também afeta a sexualidade. Segundo Aline, a intimidade está ligada à comunicação, ao afeto, à gentileza e à forma como o casal se trata durante o dia.
A vida sexual, portanto, não começa apenas no quarto. Ela também é influenciada pela maneira como o casal conversa, resolve conflitos e demonstra cuidado.
“Sexualidade não é só o ato em si. Existe uma relação de afeto, comunicação e expressão”, explica.
Quando faltam diálogo e conexão, a intimidade pode ser percebida como cobrança ou obrigação.
Sinais de alerta
Alguns comportamentos podem indicar que o casal está se afastando:
-Passam o dia sem conversar de verdade;
-Fazem refeições separados ou diante de telas;
-Dormem e acordam em horários desconectados;
-Deixam de compartilhar preocupações e decisões;
-Vivem irritados, cansados ou defensivos;
-Não têm momentos de presença sem celular;
-Tratam a intimidade como obrigação ou evitam aproximação;
-Só conversam sobre problemas práticos da casa.
Esses sinais não significam necessariamente que a relação acabou, mas indicam que a rotina precisa ser observada com mais atenção.
Relação também exige escolha
Para Aline, uma relação saudável não depende apenas do sentimento ou da história em comum. Ela também é construída por hábitos, presença e escolhas repetidas.
“Não é a rotina. O problema são as escolhas que você fez e a rotina que você construiu”, afirma.
A especialista recomenda que os casais não esperem uma crise se tornar insustentável para buscar ajuda. Pequenos ajustes feitos com intenção podem abrir espaço para mais diálogo, parceria e conexão.
Da redação
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