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Até onde confiar no treino feito por IA?
Com treinos gerados em segundos, chatbots ganham espaço entre praticantes, mas apresentam limitações quando o assunto é execução, evolução e prevenção de lesões

Até onde confiar no treino feito por IA?
Pedir um treino para a IA pode parecer semelhante a contratar uma consultoria online, mas os processos são diferentes. (Foto: Magnific)

Publicado em 14/08/2026

Hoje, basta abrir um aplicativo de inteligência artificial, informar idade, peso, objetivo e frequência semanal para receber, em poucos segundos, uma planilha de treino aparentemente completa. Uma reportagem publicada pelo Canaltech no início deste ano mostrou justamente o crescimento desse comportamento, com cada vez mais pessoas recorrendo a chatbots para montar os próprios treinos, atraídas principalmente pela praticidade e pelo acesso gratuito.

Para o personal trainer Rairtoni Pereira, a tecnologia pode ser uma importante aliada na busca por informações e organização da rotina de exercícios, mas não deve ser confundida com uma avaliação profissional.

“A tecnologia facilita muito o acesso à informação, e isso é positivo. O problema começa quando uma resposta gerada por inteligência artificial passa a ser tratada como se fosse uma avaliação individual.”

Segundo Rairtoni, durante uma sessão de treinamento, o profissional observa elementos que vão muito além da quantidade de séries, repetições ou carga utilizada. A execução dos movimentos, a mobilidade, possíveis compensações e limitações físicas fazem parte da análise necessária para definir e adaptar um treino.

“Durante uma sessão, o profissional consegue identificar erros técnicos, compensações de movimento e limitações de mobilidade que podem aumentar o risco de lesões. A partir disso, ele consegue fazer correções e adaptações de acordo com o que está observando naquele momento.”

Outro ponto destacado pelo personal trainer é a capacidade de acompanhar mudanças ao longo do processo. Para ele, a resposta de cada corpo ao treinamento exige observação contínua e decisões que podem mudar conforme a evolução do aluno.

Rairtoni também chama atenção para a diferença entre um desconforto esperado após o exercício e sinais que podem indicar o início de uma lesão. Essa distinção, segundo ele, depende da análise do contexto e da observação do praticante.

“Diferenciar um desconforto muscular normal do início de uma lesão não é simplesmente seguir uma resposta pronta. É preciso observar a pessoa, entender o que ela está sentindo e avaliar como aquele movimento está sendo executado.”

Nesse sentido, ele ressalta uma limitação importante dos chatbots: a inteligência artificial depende das informações fornecidas pelo próprio usuário. Ela não acompanha presencialmente a execução dos exercícios nem consegue observar, por conta própria, mudanças sutis no comportamento corporal.

“A inteligência artificial trabalha com aquilo que foi colocado no comando. Ela não está ali olhando o movimento, acompanhando a evolução do aluno ou percebendo sinais sutis de cansaço. Essa é uma diferença fundamental.”

Consultoria online não é o mesmo que pedir um treino à IA

Outro equívoco, segundo Rairtoni, é comparar uma consultoria profissional online com simplesmente pedir uma ficha de treino a um chatbot. Embora os dois processos aconteçam no ambiente digital, existe uma diferença importante na responsabilidade e no acompanhamento.

Na consultoria online, explica o profissional, o treino é elaborado a partir de informações sobre histórico, rotina, nível de experiência, limitações físicas e objetivos. O acompanhamento também permite revisar a estratégia conforme o aluno responde ao treinamento.

“Consultoria online continua sendo um trabalho profissional. Existe alguém responsável por analisar o histórico do aluno, entender a rotina, acompanhar a evolução e fazer alterações quando necessário. Não é simplesmente gerar uma planilha e entregar.”

O acompanhamento pode incluir ainda a análise de vídeos enviados pelo aluno. Para Rairtoni, esse recurso permite observar a execução dos exercícios e identificar erros técnicos ou compensações que poderiam passar despercebidos pelo próprio praticante.

“Quando o profissional recebe um vídeo, ele consegue observar a execução e identificar alguns padrões de movimento. Isso permite fazer uma correção e orientar o aluno de uma maneira muito mais específica.”

Por isso, o personal trainer defende que a inteligência artificial seja utilizada como ferramenta complementar, e não como substituta do acompanhamento profissional.

“Treinar bem não é apenas seguir uma planilha. É entender como cada corpo está respondendo e adaptar a estratégia quando necessário.”

Para Rairtoni, o avanço da tecnologia tende a ampliar ainda mais as possibilidades de acesso à informação e de organização dos treinos. O cuidado está em reconhecer os limites dessa ferramenta, especialmente quando o exercício envolve saúde e prevenção de lesões.

“A tecnologia vai continuar avançando, e isso é muito bem-vindo. Mas, quando estamos falando de saúde e prevenção de lesões, a inteligência artificial funciona melhor como ferramenta de apoio. A experiência e a observação de um profissional continuam sendo fundamentais.”

 

 

Da redação

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