00:00
21° | Nublado

Amor deixou de ser prioridade para mulheres?
O movimento Boy Sober e o heteropessimismo refletem mudanças nas expectativas amorosas e a busca por relações mais compatíveis

Amor deixou de ser prioridade para mulheres?
A independência financeira e emocional transforma a maneira como mulheres avaliam relacionamentos e decidem o que estão dispostas a aceitar. (Foto: Divulgação)

Publicado em 25/10/2026

Ficar solteira já não significa, necessariamente, estar à procura de alguém. Para algumas mulheres, deixar os relacionamentos amorosos em segundo plano se tornou uma escolha consciente, motivada pelo desejo de investir mais tempo em si mesmas, na carreira, nas amizades e no bem-estar pessoal.

Nas redes sociais, essa mudança ganhou visibilidade com o movimento Boy Sober, que propõe uma pausa voluntária em encontros, aplicativos de relacionamento, relações casuais e na expectativa constante de receber mensagens de possíveis parceiros. A proposta é deixar de colocar os homens no centro da vida afetiva e direcionar a atenção para outras áreas da vida.

Ao mesmo tempo, outro conceito passou a aparecer com mais frequência nas discussões sobre relacionamentos: o heteropessimismo. O termo descreve a frustração de pessoas heterossexuais com as relações amorosas, especialmente diante da percepção de que homens e mulheres têm expectativas diferentes sobre o que desejam de um parceiro.

Em agosto, uma reportagem do UOL resumiu esse desencontro em uma frase que ganhou repercussão nas redes sociais: mulheres querem homens que ainda não existem, enquanto homens querem mulheres que já não existem mais.

Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo, essa tendência não significa necessariamente que as mulheres perderam o interesse no amor, mas que estão mais criteriosas em relação aos parceiros que escolhem.

“Existe uma diferença enorme entre desistir de se relacionar e desistir de aceitar qualquer relacionamento. O que estamos vendo é muita gente dizendo: se essa relação vai me trazer mais desgaste do que felicidade, eu prefiro continuar solteira”, afirma.

Segundo o especialista, em muitos casos, essa mudança também se reflete na preferência por homens mais experientes e bem-sucedidos.

Estar solteira deixou de ser apenas uma fase

Durante muito tempo, a vida de solteiro foi vista como um intervalo entre dois relacionamentos. A expectativa era encontrar alguém, formar um casal e seguir um modelo de vida em que estar acompanhado ocupava um lugar central.

Essa visão, porém, começa a mudar.

Em julho, uma reportagem da Folha de S.Paulo mostrou mulheres que, depois de experiências amorosas frustrantes, passaram a dedicar mais tempo, energia e dinheiro às amizades femininas e a outros interesses pessoais. Algumas delas afirmaram que encontrar um parceiro deixou de ser uma prioridade.

Para Bittencourt, a independência financeira e emocional também influencia a maneira como as pessoas escolhem seus relacionamentos. Quando alguém não depende de um parceiro para construir a própria vida, passa a avaliar com mais atenção o que uma relação pode acrescentar.

“Quando uma pessoa não depende de um relacionamento para construir a própria vida, o relacionamento precisa acrescentar alguma coisa. Parece óbvio, mas isso muda completamente o nível de tolerância. Ficar com alguém apenas para não ficar sozinho perde sentido, o que é ótimo. Estar com alguém tem que ser uma decisão feita por vocação e não por falta de opção”, explica.

Essa mudança de perspectiva ajuda a entender por que algumas mulheres estão menos dispostas a permanecer em relações que não correspondem às suas expectativas.

Uma reportagem publicada pela Folha em abril também abordou o crescimento do heteropessimismo entre mulheres heterossexuais. Entre as queixas relatadas estavam a falta de iniciativa dos homens, a ausência de responsabilidade afetiva e a dificuldade de encontrar parceiros dispostos a construir relações equilibradas.

Ter critérios não significa procurar alguém perfeito

A mudança de comportamento também levanta uma questão: as mulheres estão mais exigentes ou apenas mais conscientes do que desejam em um relacionamento?

Para Bittencourt, é importante diferenciar a busca por uma pessoa idealizada da capacidade de reconhecer os próprios limites e necessidades.

“Existe uma diferença entre criar uma lista impossível de requisitos e saber aquilo que você não quer mais negociar. Ter clareza sobre seus limites não significa estar procurando uma pessoa perfeita, que inclusive nem existe, e estar preparada para aceitar os defeitos que eventualmente vão aparecer”, afirma.

O assunto ganhou ainda mais visibilidade neste ano, depois que a atriz e apresentadora Maisa Silva falou publicamente sobre características que considera incompatíveis com um relacionamento, incluindo a falta de perspectiva de vida. A declaração foi associada ao movimento Boy Sober e repercutiu nas redes sociais.

Na avaliação do especialista, a escolha de um parceiro envolve cada vez mais a análise de como duas pessoas pretendem conduzir a própria vida.

“Talvez a pergunta tenha deixado de ser ‘ele é legal?’ e passado a ser ‘a vida dessa pessoa combina com a vida que eu quero construir?’. Isso envolve comportamento, ambição, maturidade, estabilidade, estilo de vida e expectativas sobre o futuro”, observa.

Muitos solteiros, mas poucas conexões compatíveis

Os dados demográficos também ajudam a contextualizar essa discussão. Segundo números do Censo 2022 citados pela Folha de S.Paulo, o Brasil tem 33,2 milhões de mulheres e 25,7 milhões de homens com mais de 20 anos que não vivem em união.

Apesar desse número expressivo de pessoas fora de uma união conjugal, mulheres ouvidas pela publicação relataram dificuldades para encontrar parceiros com quem tenham afinidade e expectativas compatíveis.

Para Bittencourt, a quantidade de pessoas solteiras não garante que seja fácil encontrar alguém com os mesmos objetivos.

“Você pode ter milhões de pessoas solteiras e continuar tendo dificuldade para encontrar alguém que combine com aquilo que procura. Relacionamento nunca foi uma questão puramente matemática. E na maioria das vezes olhar para dentro resolve muito mais do que olhar para fora”, avalia.

Em outras palavras, estar disponível para um relacionamento e encontrar alguém compatível são coisas diferentes. Interesses em comum, maturidade, planos para o futuro e expectativas sobre a vida a dois também influenciam a possibilidade de construir uma relação duradoura.

Boy Sober pode representar uma nova forma de enxergar o amor

Na visão de Bittencourt, movimentos como o Boy Sober dizem mais sobre a transformação das expectativas amorosas do que sobre uma rejeição definitiva aos relacionamentos.

“Eu não vejo uma geração desistindo do amor. Vejo pessoas menos dispostas a entrar em relações só porque existe uma expectativa social de que elas precisam estar com alguém”, afirma.

Nesse contexto, a pausa nos encontros pode funcionar como uma oportunidade para rever experiências anteriores, identificar padrões e entender quais características são realmente importantes na escolha de um parceiro.

“Talvez essa pausa seja justamente o momento em que muita gente começa a entender melhor aquilo que quer. E quando você sabe o que procura, fica muito mais fácil dizer não para o que não combina com você e sim quando aparece algo que realmente faz sentido”, diz o especialista.

A mudança não significa que todas as mulheres tenham as mesmas expectativas ou que os relacionamentos estejam perdendo importância. Ela aponta, sobretudo, para uma maneira diferente de encarar a vida amorosa, na qual estar com alguém deixa de ser uma obrigação social e passa a depender mais da vontade de compartilhar projetos e construir uma relação satisfatória para ambas as partes.

“Relacionamentos mudaram porque as pessoas mudaram. O que não mudou é a necessidade de duas pessoas quererem coisas compatíveis. Quanto mais cedo essa conversa acontece, menor a chance de alguém descobrir meses depois que estava vivendo uma relação completamente diferente daquela que imaginava”, conclui Bittencourt.

 

 

 

Da redação

Para receber notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.

Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!

Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp!

Para mais notícias, clique AQUI

Siga-nos no Google notícias

Google News