A hiperconexão e “O boi” de Drummond, por Luzia Almeida
Entre seguidores e notificações, o contato virtual nem sempre substitui vínculos reais
Nossos olhos seguem cativos dos mandos e dos desmandos de uma tela (ou telinha) e fugir do cativeiro significa viver, mas quem acredita nisto? O conceito de vida segue quase obsoleto e as cores das flores, e o cantar dos pássaros, e a conversa com os amigos continuam tão importantes quanto eram antes da sedução.
Estar conectado além do limite gera um boleto e a ilustração desta conta encontra-se no poema “O boi” de Drummond: “Ó solidão do boi no campo, / ó solidão do homem na rua! / Entre carros, trens, telefones, / entre gritos, o ermo profundo”. A solidão é o preço que o eu lírico destaca e já existia antes da hiperconexão: o poeta sentia de longe este arrepio e este tipo de hostilidade: a figura de um “boi no campo” simboliza muito as solidões nos apartamentos, as frustrações, as lágrimas e as saudades de um toque ou de uma carícia.
Ninguém vive sem amor e estar conectado não significa ser amado. Ter mil amigos no Instagram não tem o peso de um abraço. O Instagram não tem braço. E o “touch me now” da Roxette é impossível como o dia que passou. É paradoxal! Ter mil seguidores e estar sozinho num quarto vazio. As redes sociais podem enganar os olhos, mas não podem enganar o coração.
O problema da hiperconexão clama por um tema na redação do Enem 2026, que seria mais ou menos assim: “Desafios para o enfrentamento da hiperconexão dos jovens na sociedade brasileira” e a coletânea seria as estatísticas das depressões e das ansiedades que acometem os brasileiros e o conceito de Bauman sobre “Modernidade líquida” faria sentido neste quadro de redes.
Ora, por que o tema da redação estaria direcionado aos jovens? Por causa do futuro do Brasil. Se não houver leitores no país, o que será de nós? Essa epidemia social traz consequências a curto e a longo prazo. Se o Ministério da Educação — que é o agente por excelência — não for acionado... As redes sociais passam a ilusão do contato, mas não passam da superficialidade da luz da tela.
Outras luzes há e livros que convidam ao raciocínio e à fascinação intelectual. É impossível não crescer após a leitura de “A revolução dos bichos” de George Orwell ou de “O mandarim” de Eça de Queirós ou de “Vidas secas” de Graciliano Ramos. É impossível não pensar em situações conflituosas e crescer e aprender a ser gente depois de ler os contos “Leite” de Elsa Joubert ou “Na sombra da morte” de Rudolfs Blaumanis. Sim, ninguém pode permanecer o mesmo depois destas leituras.
“O boi” de Drummond permanece perdido no meio de tantos poemas, mas é resgatado hoje como ilustração de vazio e de solidão: “Ó solidão do boi no campo, / homens torcendo-se calados! / A cidade é inexplicável / e as casas não têm sentido algum.”. Ó solidão de tantas telas acesas que precisam ser desligadas para que o sono seja uma dádiva. Desligar as redes e “armar a rede” (como diz o paraense). Sim, mano, uma rede pra dormir e sonhar com a mansidão do boi de Drummond.
Para ler outras crônicas da Luzia Almeida, nossa brilhante colunista clique AQUI
Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI
Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.
Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!
Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp
Comentários via Whats: (48) 99162 8045
Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
Ver outros artigos escritos?
Notícias relacionadas Ver todas
21° | Nublado