A Dança, por Denise Evangelista Vieira
Entre movimentos e silêncios, dançar se aproxima da difícil arte de escutar e dialogar
“Não acredito em um Deus que não saiba dançar.”
Friedrich Nietzsche
Talvez a dança seja tão fascinante porque reúne, ao mesmo tempo, flexibilidade, ritmo, leveza e domínio do corpo. Corpo que, sem perder seu contorno, se arrisca no espaço e desafia limites; uma unidade que expressa sentimentos, sem necessariamente seguir o roteiro da palavra, enquanto é capaz de construir sentidos.
A dança a dois é então um diálogo que contempla flexibilidade, ritmo, delicadeza (leveza), leitura do movimento do outro, num determinado espaço-tempo que os dançarinos se dispõem a compartilhar. Nesse diálogo pode haver, eventualmente, uma transferência momentânea, para o outro, da nossa própria segurança e integridade. A beleza se revela, justamente, quando há entrega e reciprocidade.
É necessário que haja entre os dançarinos, entre aqueles que pretendem dialogar, um ambiente seguro, um clima favorável, para que possam se arriscar entre os próprios suportes e o acolhimento do outro. Além disso, é preciso uma entrega ao tempo da dança, como na obra da coreógrafa alemã, Pina Bausch, uma suspensão poética, na qual a urgência da vida, o tempo da memória e a densidade das emoções se encontram. Para a artista, o tempo da dança era um espaço de escuta profunda. Um momento para desacelerar, sair dos automatismos, um tempo para se estar presente. Assim é também o setting terapêutico, um tempo-espaço para se estar com tudo o que estiver presente.
Talvez seja simbólico que junto com o ritmo contemporâneo, tempos e espaços estejam cada vez mais escassos. É exatamente no meio da loucura de afazeres, notícias e exigências, que parar para olhar para si e para o entorno surge, cada vez mais, como possibilidade de resgatarmos a sensação de integridade e de domínio, que vão se perdendo, sobre nossa própria existência.
Aprender a dialogar torna-se cada vez mais necessário, se quisermos enfrentar e superar os desafios contemporâneos, individuais e coletivos. E é aqui que podemos aproximar ainda mais as duas artes, a de dançar e a de dialogar. Desenvolver a capacidade de estar presente, cultivando a disponibilidade de olhar para o outro, de ser suporte quando necessário, de estabelecer um clima tranquilo e seguro, para que, criando espaços-tempos, avancemos — superando, sem ferir, nossos próprios limites ou os dos outros. Isso requer ir além de si mesmo, um grau de autoconhecimento, coragem para sair das nossas zonas de conforto, nem sempre confortáveis, e da ilusão de que podemos viver sem os demais.
Assim como Nietzsche não acreditava em um Deus que não soubesse dançar, como podemos crer numa humanidade cooperativa, que crie novos sentidos, sem que saibamos dialogar? Ter a habilidade de dialogar certamente vem do espaço-tempo do nosso desenvolvimento, mas há sempre a possibilidade de aprendermos, desde que façamos alguns esforços neste sentido. É possível que, hoje, seja essa a grande responsabilidade de todos nós, nas relações íntimas, nas relações de trabalho, nas redes sociais: aprender a cultivar boas condições para que possam acontecer diálogos.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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