Um vocabulário que esconde um país de si mesmo, por Vinicius Lummertz
Texto relaciona linguagem, política e democracia ao argumentar que palavras imprecisas comprometem a compreensão da realidade brasileira
Toda reconstrução nacional começa quando uma sociedade volta a chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome.
Os países não vivem apenas das instituições que constroem nem das riquezas que produzem. Vivem também do vocabulário com que descrevem a si mesmos. A linguagem não é apenas um instrumento de comunicação; é uma forma de organizar a inteligência coletiva. Quando perde precisão, o pensamento perde profundidade; quando o pensamento perde profundidade, a política passa a administrar consequências em vez de enfrentar causas.
Ludwig Wittgenstein observava que os limites da linguagem são também os limites do mundo que conseguimos compreender. George Orwell advertia que a degradação das palavras compromete a própria capacidade de pensar. E Platão, na alegoria da caverna, mostrou homens que confundiam sombras com a realidade. O Brasil parece correr um risco diferente: produzir um vocabulário que transforme a própria realidade em sombra.
Chamo de vocabulário de sombras o conjunto de palavras que, em vez de revelar a realidade, a suavizam, a vulgarizam ou a naturalizam. São palavras que escondem o Brasil dos próprios brasileiros.
"Penduricalhos" é um exemplo. Pela própria definição, penduricalho é um detalhe, um acessório. A palavra não pode designar aquilo que, em determinados casos, representa parcela equivalente ou superior à remuneração principal. A "taxa das blusinhas" transformou uma discussão sobre tributação, indústria, juros, comércio eletrônico e custo de vida em um apelido aparentemente inocente. "Custo Brasil" também suaviza uma realidade composta por burocracia, insegurança jurídica, carga tributária complexa, crédito caro e baixa produtividade.
O mesmo ocorre com "empréstimo consignado". A expressão soa técnica e neutra, embora muitas vezes designe crédito concedido a quem oferece como garantia o próprio salário ou benefício previdenciário e, ainda assim, esteja sujeito a custos elevados. A linguagem torna familiar aquilo que deveria provocar permanente inconformismo.
Talvez nenhum caso seja mais revelador do que a palavra "comunidade". Em qualquer democracia madura, comunidade é um dos pilares da vida cívica: comunidade científica, médica, empresarial, acadêmica, religiosa, cultural ou de bairro. Santa Catarina construiu boa parte de sua história sobre esse espírito comunitário, gerador de confiança e capital social. Entre nós, porém, a palavra passou a substituir, quase exclusivamente, favela. Produziram-se duas deformações ao mesmo tempo: suavizou-se uma das maiores tragédias urbanas brasileiras e retirou-se da vida nacional um dos conceitos mais importantes da convivência democrática.
Também banalizamos conceitos históricos. "Comunista", "fascista" e "racista" deixaram, muitas vezes, de esclarecer para apenas rotular. Quando tudo recebe o mesmo nome, os conceitos perdem força, e o debate perde qualidade.
Existe ainda a naturalização dos absurdos. Juros extraordinariamente elevados, inclusive em operações garantidas por salário ou benefício, fraudes contra aposentados, crimes hediondos, burocracia excessiva e baixa produtividade deixam rapidamente de causar espanto. O extraordinário transforma-se em rotina. A indignação dura menos do que o ciclo das manchetes.
Uma democracia depende de instituições sólidas, mas depende igualmente de uma linguagem capaz de distinguir realidade de narrativa, causa de consequência e diagnóstico de propaganda. Sem essa linguagem comum, enfraquecem-se o diálogo, os consensos e a capacidade de reformar o país.
Talvez exista, por trás desse vocabulário de sombras, uma perda gradual do sentimento pelo Brasil. Quem ama uma nação não transforma suas feridas em eufemismos. Dá-lhes nome porque deseja superá-las.
Recuperar o significado das palavras é um ato de patriotismo. Na caverna de Platão, as sombras impediam os homens de enxergar a realidade. O Brasil parece ter criado algo ainda mais perigoso: um vocabulário que esconde um país de si mesmo. Nenhuma nação consegue transformar aquilo que já não consegue nomear com clareza. Talvez a primeira grande reforma de que o Brasil necessite seja recuperar a coragem de chamar as coisas pelo nome que verdadeiramente têm.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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