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Turismo precisa de um mandato político, por Vinicius Lummertz
Com impacto direto em setores como aviação, hotelaria, gastronomia, eventos e comércio, o turismo é apontado como uma ferramenta capaz de ampliar a competitividade do país e fortalecer economias locais

Turismo precisa de um mandato político, por Vinicius Lummertz
A criação de um Plano Nacional de Turismo e Viagens e de um programa voltado à conectividade aérea está entre as propostas apresentadas para ampliar a integração entre cidades e fortalecer o crescimento econômico. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 16/06/2026

O turismo brasileiro sofre de um problema de definição. Continua sendo tratado como um setor econômico quando, na realidade, tornou-se uma das mais importantes plataformas de competitividade das economias modernas.

O mundo já não fala apenas em turismo. Fala em Travel and Tourism. A economia das viagens. A economia da mobilidade. A economia do visitante. Um sistema que integra aviação, hotelaria, gastronomia, comércio, eventos, esportes, cultura, entretenimento, tecnologia, logística e desenvolvimento urbano.

Talvez seja hora de o Brasil atualizar sua visão.

Quando uma empresa realiza uma convenção, quando um investidor visita uma região, quando uma feira internacional escolhe uma cidade, quando uma companhia aérea inaugura uma rota ou quando uma família decide viajar, dezenas de setores entram em movimento simultaneamente. O turismo não é apenas uma atividade econômica. É um multiplicador econômico. Mais do que isso, é uma infraestrutura invisível que conecta pessoas, negócios, investimentos e oportunidades.

Por isso, deve ser tratado como infraestrutura de competitividade.

A aviação é um exemplo evidente. Nenhum país continental se integra sem conectividade. Nenhuma região atrai investimentos sem mobilidade. Nenhuma economia moderna prospera sem a circulação eficiente de pessoas, conhecimento e capital. Turismo e viagens funcionam, nesse sentido, como o verdadeiro backbone de conectividade do Brasil.

O país precisa de um Programa Nacional de Conectividade Aérea e Integração Logística. Um programa capaz de fortalecer aeroportos regionais, estimular aeronaves de menor porte, ampliar rotas, aumentar frequências e integrar centenas de cidades hoje afastadas dos grandes fluxos econômicos.

A experiência de São Paulo demonstrou que isso é possível. A redução do ICMS sobre o querosene de aviação ampliou a malha aérea, fortaleceu aeroportos regionais, criou mais de 700 frequências semanais adicionais e ajudou a consolidar um novo ciclo de investimentos, acompanhado pela concessão de 22 aeroportos. Menos impostos significaram mais conectividade, mais atividade econômica e mais arrecadação.

Mas conectividade é apenas uma parte da agenda.

O Brasil também precisa de um Plano Nacional de Turismo e Viagens. Um plano capaz de organizar prioridades, estabelecer metas e projetar resultados para uma atividade que já se tornou estratégica para a geração de empregos, renda e investimentos. Esse plano deve incluir conectividade aérea, desenvolvimento dos parques naturais, atração de eventos internacionais, fortalecimento dos cruzeiros, economia criativa, qualificação profissional, crédito, simplificação regulatória e modernização dos destinos.

Mais importante ainda, deve responder a perguntas objetivas. Quantos empregos podem ser criados? Quanto investimento pode ser atraído? Quanto desenvolvimento regional pode ser produzido? Qual será o impacto sobre a renda, a produtividade e a arrecadação?

O mundo já está fazendo essas contas. O setor de Travel and Tourism representa cerca de 10% da economia mundial, contribuiu com mais de US$ 11 trilhões para o PIB global e sustenta centenas de milhões de empregos. As projeções para a próxima década apontam crescimento contínuo e acima da média da economia mundial. (Conselho Mundial de Viagem e Turismo).

O Brasil também crescerá. Mas as estimativas indicam expansão inferior à média global. Em outras palavras, podemos avançar em números absolutos e, ainda assim, perder participação relativa. Esse é um alerta que não deveria passar despercebido.

Há, porém, uma lição que o turismo brasileiro precisa aprender.

Boas ideias não vencem sozinhas.

O Simples Nacional tornou-se uma das mais importantes políticas públicas da história brasileira porque conquistou um mandato político. Houve uma tese clara, números consistentes, mobilização institucional e um enorme esforço de convencimento nacional. Foram centenas de seminários realizados pelo Sebrae em todo o país e encontros com as bancadas parlamentares dos estados. Economistas, jornalistas, empresários e parlamentares foram chamados a compreender os impactos daquela transformação.

O resultado foi a construção de um consenso.

O turismo precisa fazer algo semelhante.

Foi com esse espírito que propusemos, recentemente, no LIDE, a criação de uma União Nacional do Turismo. Não mais uma entidade. Não mais uma sigla. Mas um espaço permanente de convergência, capaz de reunir o conhecimento acumulado pelos diversos segmentos da economia das viagens para formular uma agenda nacional de desenvolvimento.

As próximas eleições oferecem uma oportunidade rara para iniciar esse debate. Não como uma reivindicação corporativa, mas como uma discussão sobre o futuro da competitividade brasileira.

O Brasil possui ativos extraordinários. Possui natureza, cultura, mercado interno, capacidade empresarial e uma das maiores redes de cidades do planeta. O que ainda não possui é uma visão compartilhada sobre como transformar esses ativos em prosperidade.

Turismo e viagens podem fazer muito mais pelo Brasil do que o Brasil tem permitido que façam. Mas isso exigirá algo além de incentivos pontuais. Exigirá uma tese nacional, metas claras e capacidade de mobilização.

O turismo não é uma consequência do desenvolvimento. É uma das formas mais eficientes de produzi-lo.

Os ativos já existem. O mandato político ainda precisa ser construído.

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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