Santa Catarina: a lógica dos ecossistemas, por Vinicius Lummertz
O futuro do turismo catarinense depende da capacidade de conectar diferentes setores e transformar investimentos em oportunidades compartilhadas
Em Istambul, participei como keynote speaker do congresso anual da Aliança Internacional dos Municípios Turísticos da Rota da Seda, onde tratei de investimentos em turismo e de uma mudança de perspectiva especialmente importante para Santa Catarina: precisamos deixar de pensar apenas em destinos e avançar para ecossistemas planejados de forma integrada.
Um destino é o lugar que motiva a viagem, seja uma praia, uma cidade, um parque ou uma paisagem. O ecossistema turístico é mais amplo, porque conecta esses ativos à infraestrutura, logística, tecnologia, cultura, educação, saúde, gastronomia, comércio, esportes e economia criativa, além dos sistemas portuário, aeroportuário, ambiental e urbano. Planejar ecossistemas é potencializar essas forças, fazendo com que uma aumente o valor das demais.
Essa discussão ocorre quando o mundo investe pesadamente no setor. Segundo o WTTC, os investimentos globais em viagens e turismo ultrapassaram US$ 1 trilhão em 2025, crescendo 8,5% em um ano. A competição já não acontece apenas entre atrações, mas entre territórios capazes de organizar seus ativos e transformar diferentes investimentos em oportunidades que se reforçam.
Santa Catarina parte de uma condição privilegiada. Temos indústria, tecnologia, portos, aeroportos, universidades, saúde, agricultura, cultura e extraordinária diversidade natural. Nosso desafio não é transformar o Estado numa monocultura turística, mas fazer exatamente o contrário: utilizar o turismo como plataforma de integração dessas múltiplas vocações, multiplicando renda, produtividade e qualidade de vida.
Florianópolis talvez seja nosso melhor exemplo. O novo aeroporto mostrou como uma infraestrutura pode mudar a escala de um território, ampliar sua conectividade e abrir novas possibilidades. A cidade consolidou-se como hub tecnológico, universitário, ambiental e turístico, combinando inovação, praias e qualidade de vida num território em que pelo menos 60% da área é formada por espaços naturais protegidos. Preservar essa combinação é tão importante quanto potencializá-la.
Mas Florianópolis já não pode ser pensada apenas dentro dos limites da Ilha. A Grande Florianópolis se organiza ao redor das duas baías e se conecta progressivamente ao restante do litoral. Ao norte, ganha forma a lógica de uma cidade horizontal, a “Floriville”, aproximando Florianópolis, os vales e o litoral norte num corredor urbano, tecnológico, industrial, logístico e turístico. Ao sul, permanece o desafio de integrar cidades, praias e projetos estruturantes, entre eles a Via Mar. Integrar o Sul, com a inter-praias , o território mais livre para a progressão dos modelos territoriais.
Essa nova escala exige planejamento. Saneamento, mobilidade, infraestrutura, preservação ambiental e crescimento populacional não podem continuar como agendas separadas. Sustentabilidade e produtividade precisam estar no centro dessa equação, para que Santa Catarina cresça sem perder a qualidade dd vida , mas sim incremente o modelo civilizatório que constitui o seu maior patrimônio.
A FIESC vem desenvolvendo um importante trabalho de planejamento de longo prazo, especialmente em infraestrutura e logística. O próximo passo é ampliar essa lógica, conectando infraestrutura aos ecossistemas tecnológico, industrial, portuário, ambiental, turístico, educacional e urbano. Planejar não significa controlar aquilo que funciona pela diversidade, mas coordenar e potencializar.
Há ainda a simultaneidade. Muitos ecossistemas europeus levaram gerações para se formar organicamente; hoje podemos acelerar esse processo. Quando aeroporto, rodovia, saneamento, mobilidade, hotelaria, tecnologia, cultura e serviços avançam em períodos próximos, cada investimento aumenta o valor dos demais. Quando caminham separadamente, todos pagam pelo atraso.
Santa Catarina cresceu pela força de suas comunidades, empreendedores e regiões, criando ecossistemas poderosos que muitas vezes ainda funcionam paralelamente. O próximo salto exige conectá-los, sem substituir nossas vocações pelo turismo, mas usando o turismo para fortalecê-las.
Planejar ecossistemas é o desafio da nova era catarinense ; integrar infraestrutura, conhecimento, produção, natureza e qualidade de vida para que cada força potencialize as demais. A internacionalização de Santa deve entrar em pauta na busca por investimentos em um território mais preparado e mais organizado; pois os imigrantes que vieram para cá realizaram um sonho e os milhares que continuam vindo poderão participar de uma nova etapa do sonho catarinense.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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