Reflexões sobre modos de habitar o mundo inspiram exposição inédita
Com entrada gratuita, exposição inédita no MIS-SC reúne instalações, performances, vídeos, fotografias e trabalhos sonoros
Como habitar a Terra sem continuar ocupando-a como quem possui, domina e extrai? É a pergunta que atravessa “Da pele à terra: percursos de pousos e riscos”, exposição individual de Damiana Bregalda apresentada pela primeira vez no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS-SC), em Florianópolis. Com curadoria de Juliana Crispe, a mostra gratuita abre às 18h da terça-feira, 6 de outubro.
Damiana explica que o título reúne dois aspectos centrais de sua pesquisa: a pele e o corpo, aquilo que toca e constitui, e a terra, compreendida não como recurso, mas como território vivo, atravessado por memórias, histórias, conflitos, relações e possibilidades de existência. “A ideia de ‘pouso’ aparece como um gesto de suspensão, desaceleração e atenção. Já o ‘risco’ diz respeito tanto à vulnerabilidade quanto à possibilidade de deslocar certezas e experimentar outras formas de habitar a Terra”, explica a artista.
A exposição reúne 16 obras de diferentes linguagens: quatro instalações, uma série de quatro monotipias, quatro vídeo-performances, duas publicações de artista, uma série de seis foto-performances, duas fotografias e dois trabalhos sonoros. O conjunto resulta de mais de dez anos de pesquisa artística e antropológica sobre corpo, terra, tempo e modos de habitar o mundo.
Embora alguns trabalhos já tenham sido apresentados anteriormente, “Da pele à terra: percursos de pousos e riscos” é inédita como exposição, tanto pelo título quanto pela configuração do conjunto. A mostra reúne trabalhos iniciados em 2013 e produções recentes.
Entre os trabalhos de longa duração está “Diário de pousos”, iniciado em 2013 e apresentado agora ao público pela primeira vez. No projeto, a artista coleta folhas e flores no momento em que se desprendem das árvores e registra o local e o horário de cada pouso, transformando esses acontecimentos em uma investigação sobre tempo, deslocamento e relação.
Já a série “Ara Maí: semear em terras devastadas (2026)” foi desenvolvida nos últimos dois anos, durante a pesquisa de pós-doutorado (2024–2026) no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os trabalhos “Ara Maí” e as monotipias foram realizados em três paisagens de Santa Catarina: uma pedreira e uma plantação de monocultura de pinus elliottii, em Florianópolis, e uma mina de carvão, em Criciúma.
A relação entre corpo, território e disputa também aparece nas vídeo-performances “É preciso correr o risco – na pele” e “É preciso correr o risco – na terra”. Nesta última, a artista percorre uma área destinada à monocultura de soja em Paraí, no Rio Grande do Sul, onde semeia o Avaxi Para’í, variedade de milho cultivada pelos Guarani. O gesto estabelece uma tensão entre a lógica da monocultura e outras formas de produção e cuidado da vida.
Habitar o mundo
A partir da relação entre corpo, território, memória, tempo e matéria, a exposição aborda questões como crise climática, devastação ambiental, monocultura, exploração dos territórios e efeitos da colonialidade sobre os corpos humanos e a terra.
Em diálogo com saberes e experiências de povos originários e quilombolas, a pesquisa também aborda diferentes formas de habitar e produzir mundo. A partir de sua posição enquanto mulher branca, a artista interroga as heranças coloniais que atravessam sua própria história e investiga possibilidades de escuta de outros modos de existência e relação com a Terra.
A artista não pretende oferecer respostas prontas, mas criar situações para que o público possa parar, observar, escutar e questionar certezas sobre a relação com a Terra. “A exposição propõe pensar a crise ecológica a partir de uma perspectiva decolonial. Em diálogo com Malcom Ferdinand e sua Uma ecologia decolonial, compreendemos que a devastação ambiental não pode ser dissociada da história do colonialismo, da escravidão, do racismo, da apropriação territorial e dos modelos de exploração que transformaram a natureza em propriedade e mercadoria. A crise climática possui uma história, e essa história também é colonial”, destaca a curadora Juliana Crispe.
O gesto de semear aparece em diferentes trabalhos da mostra e ganha sentido diante dos cenários de devastação apresentados pela artista. “Interessa pensar a Terra como um mundo compartilhado entre humanos e não humanos. Por isso, o gesto de semear aparece como uma possibilidade poética e política: não como uma promessa ingênua de recuperar uma natureza intocada, mas como uma maneira de imaginar outros modos de habitar”, explicam a curadora e a artista.
A mostra marca a primeira exposição de Damiana no MIS-SC. Para a artista, ocupar o espaço tem significado especial pelo caráter público e pelo acesso gratuito. “Tenho uma expectativa muito grande de que o espaço do MIS possa funcionar não apenas como lugar de apresentação das obras, mas como um espaço de encontro, pausa e reflexão”, afirma.
Da redação
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