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Quem constrói os símbolos de uma nação? Por Vinicius Lummertz
Reflexão reúne exemplos internacionais e brasileiros para discutir como investimentos simbólicos ajudam a construir identidade, desenvolvimento e legado para as futuras gerações

Quem constrói os símbolos de uma nação? Por Vinicius Lummertz
De Barcelona a Florianópolis, artigo analisa o papel da liderança pública na criação de obras que transformam cidades e permanecem vivas na memória coletiva. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 21/07/2026

Estou diante da Sagrada Família, em Barcelona. Há uma pergunta que raramente fazemos diante de uma grande obra. Conhecemos o arquiteto, admiramos sua criatividade e discutimos a técnica, mas quase nunca perguntamos quem tomou a decisão política que a tornou possível, enfrentou críticas, reuniu recursos e assumiu o risco de realizar algo cujo reconhecimento talvez só chegasse décadas depois. Essa omissão é uma injustiça histórica e ajuda a explicar por que tantas democracias perderam a capacidade de pensar além do próximo ciclo eleitoral.

Iniciada em 1882, a Sagrada Família tornou-se muito mais que uma igreja. O mesmo ocorreu com a Torre Eiffel, o Cristo Redentor e a Estátua da Liberdade. Nenhuma dessas obras nasceu da unanimidade. Todas foram acusadas de caras, desnecessárias ou extravagantes. O tempo, porém, faz uma distinção que a política frequentemente ignora: despesas desaparecem; grandes investimentos simbólicos multiplicam seu valor por gerações.

A França de François Mitterrand oferece um exemplo eloquente. O Grande Arco de La Défense surgiu de um concurso internacional vencido pelo então pouco conhecido arquiteto dinamarquês Johan Otto von Spreckelsen. No mesmo ciclo, Mitterrand confiou ao sino-americano I. M. Pei a Pirâmide do Louvre, inicialmente recebida com resistência e hoje inseparável da identidade de Paris. Um filme recente sobre o Grande Arco recupera justamente a relação, por vezes difícil, entre o criador e o governante que sustentou politicamente a obra. Sem talento arquitetônico não existe grande projeto; sem liderança política, ele jamais sai do papel.

O Brasil também demonstrou essa capacidade. Em apenas quatro anos, Juscelino Kubitschek, ao lado de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, construiu Brasília, alterou a geografia política nacional e criou uma das maiores realizações urbanísticas do século XX. Obras destinadas a atravessar séculos exigem talento, visão pública e coragem para pensar grande.

Santa Catarina também possui seus símbolos. A Ponte Hercílio Luz e o Palácio Cruz e Sousa evocam a visão de um governante que compreendeu que determinadas obras ultrapassam sua função imediata e passam a representar a identidade de um povo. Décadas depois, o novo terminal do Aeroporto Internacional Hercílio Luz ofereceu outro exemplo. A primeira proposta apresentada pela Infraero era modesta. Eu estava presente quando o então governador Luiz Henrique da Silveira pediu que a empresa promovesse um concurso nacional de arquitetura. Participaram dezenas de escritórios do Brasil e do exterior, vencendo o projeto de Mário Biselli e sua equipe. A excelência do resultado confirma uma verdade simples: grandes obras nascem do encontro entre o talento de quem cria e a visão de quem decide. O mérito é compartilhado. Reconhecer essa parceria é condição para que ela volte a acontecer.

O paradoxo é que Florianópolis, capaz de conquistar um aeroporto de padrão internacional, ainda não possui uma sede de Prefeitura compatível com sua importância. Da mesma forma, parte da sociedade resiste à Marina da Beira-Mar Norte, embora ela represente investimento privado capaz de ampliar a arrecadação pública, fortalecer o turismo, valorizar a cidade e gerar recursos permanentes para políticas sociais. Há uma diferença essencial entre gasto e investimento que produz riqueza por décadas.

Dubai e Abu Dhabi transformaram arquitetura, urbanismo e equipamentos culturais em instrumentos de desenvolvimento e projeção internacional. As diferenças entre regimes políticos são evidentes, mas permanece uma constatação incômoda: muitas democracias passaram a desconfiar da própria ambição. Fiscalizar o poder é indispensável; impedir sistematicamente projetos transformadores é outra coisa.

Liberdade, transparência e controle público são conquistas irrenunciáveis. Mas não podem transformar toda grande obra em suspeita. Os recursos que faltam à educação, à saúde e à segurança não desaparecem porque um país decidiu construir um patrimônio duradouro. Perdem-se na corrupção, na ineficiência, no desperdício e no populismo que troca resultados permanentes por aplausos imediatos.

Também precisamos rever a forma como contamos essas histórias. Assim como preservamos a memória de arquitetos, engenheiros e artistas, devemos reconhecer os líderes públicos que tornaram suas obras possíveis. Não por culto à personalidade, mas porque sociedades que apagam seus estadistas acabam desencorajando novos estadistas.

As civilizações não sobrevivem apenas pelos governos que elegem nem pelos indicadores econômicos que acumulam. Permanecem vivas pelos símbolos que constroem, pelo patrimônio que preservam e pela confiança que deixam às próximas gerações. Uma democracia madura não escolhe entre resolver os problemas do presente e construir o futuro. Faz as duas coisas. A pergunta decisiva talvez não seja quanto custa erguer uma grande obra, mas quanto custa a uma nação perder a coragem de imaginar, realizar e reconhecer aqueles que tornam possível um legado que continuará produzindo riqueza, identidade e esperança muito depois de todos nós pertencermos à história.

 

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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