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Por uma Ivy League brasileira, por Vinicius Lummertz
A doação bilionária para um campus da Carnegie Mellon em Miami inspira uma reflexão sobre o papel do investimento privado na educação brasileira

Por uma Ivy League brasileira, por Vinicius Lummertz
Em artigo, Vinicius Lummertz defende a mobilização de empresários e o fortalecimento dos fundos patrimoniais para transformar o ensino superior e ampliar a produção de conhecimento no país. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 13/10/2026

Ken Griffin, fundador da Citadel, comprou de Moishe Mana terrenos em Wynwood, Miami, por US$ 1,1 bilhão para um novo campus da Carnegie Mellon. A compra integra uma doação de US$ 3 bilhões, com US$ 2 bilhões destinados a Miami e US$ 1 bilhão a Pittsburgh. Referência em computação, inteligência artificial e robótica, reunirá ensino, pesquisa e empresas em saúde, energia e manufatura avançada.

A Flórida acelera uma tradição americana: empresários mobilizam patrimônio para criar centros de excelência universitária e transformar cidades. Northeastern e Babson já mantêm unidades em Miami, enquanto Vanderbilt prepara um campus em West Palm Beach. Na era da inteligência artificial, produzir conhecimento abre novas oportunidades econômicas.

Em Wynwood, arte, música e moda acompanhavam a valorização imobiliária; a universidade acrescentará pesquisa, estudantes e empresas. Mana conecta empreendedores latino-americanos a investidores e mercados americanos pela Mana Tech, inclusive em parceria com a ACATE, apoiada pelo Floripa Sustentável. Universidade, tecnologia e negócios imobiliários passam a integrar uma mesma visão de desenvolvimento.

O Brasil já iniciou esse caminho, mas avança lentamente na legislação, na mobilização empresarial e na integração entre conhecimento e desenvolvimento urbano. Enquanto experiências como a de Miami articulam essas forças, entre nós elas ainda caminham separadas. Não podemos observar essa transformação mundial sem agir.

A força americana deve muito a empresários que converteram fortunas em instituições. Stanford nasceu da iniciativa de Jane e Leland Stanford; Carnegie Mellon tem raízes na filantropia industrial; Harvard, criada pelo poder colonial, consolidou-se com gerações de doadores. Essa ambição atravessa fronteiras: os Emirados Árabes Unidos atraíram a NYU para Abu Dhabi, enquanto a China acolheu a NYU Shanghai, criada com a East China Normal University.

Temos bases promissoras: FAAP, Mackenzie e PUCs expressam tradições da sociedade civil; a Saint Paul integra o ecossistema educacional da EXAME e do BTG Pactual; Insper e Inteli ampliam a formação tecnológica. O ITA, concebido com participação de Richard Smith, professor do MIT, ajudou a formar a base da qual emergiu a Embraer, enquanto as engenharias da UFSC construíram relações duradouras com a indústria catarinense.

USP, Unicamp e universidades federais precisam de apoio e são parceiras naturais dessa expansão. A cooperação com empresas pode crescer, mas restrições orçamentárias e regras de gestão pública limitam sua flexibilidade e velocidade. Precisamos, sobretudo, de um novo modelo universitário, organizado como uma rede privada sem fins lucrativos, com autonomia acadêmica e de gestão, pesquisa de excelência e conexão internacional.

Seu financiamento deve se apoiar em endowments, fundos patrimoniais que recebem doações, investem os recursos e destinam parte dos rendimentos a bolsas, professores e laboratórios, preservando o patrimônio para sustentar gerações futuras. Isso sustenta instituições além da vida dos fundadores, com bolsas para talentos de qualquer origem.

Uma Ivy League brasileira dependerá de empresários da indústria, do comércio, da tecnologia, do agronegócio, dos serviços, das finanças e do setor imobiliário, reunidos em compromissos duradouros. A Lei de Fundos Patrimoniais, de 2019, precisa avançar em direção ao modelo americano, com deduções fiscais mais amplas para doações à educação e à pesquisa, segurança jurídica e gestão transparente.

Aos governos cabe criar condições; aos educadores, assegurar excelência e liberdade acadêmica; à classe produtiva, liderar e financiar essa construção. Miami mostra uma tradição que ganhou velocidade. O Brasil precisa transformar essa compreensão em instituições, porque o conhecimento que deixarmos de produzir será também o futuro que deixaremos de construir.

 

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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