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Para governar é preciso cultura? Por Vinicius Lummertz
Em meio à abundância de informação, ampliar o repertório se torna essencial para decisões públicas mais qualificadas

Para governar é preciso cultura? Por Vinicius Lummertz
Cultura não se resume às artes, aos museus ou ao patrimônio. O conceito também envolve conhecimentos, experiências, referências e valores capazes de ampliar a compreensão da realidade e melhorar a tomada de decisões. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 18/08/2026

Poucas palavras são tão mal compreendidas na vida pública quanto cultura. Costumamos associá-la às artes, à literatura, aos museus e ao patrimônio. Tudo isso é cultura, mas está longe de esgotar seu significado. Cultura é também repertório: conhecimentos, experiências, referências e valores que ampliam nossa capacidade de compreender o mundo, estabelecer relações, formular perguntas melhores e encontrar soluções para problemas complexos.

Há mais de dois mil anos, Confúcio colocou educação, cultivo pessoal e qualidade dos dirigentes no centro da ordem pública — uma tradição que ainda marca a China. Aristóteles chamou de phronesis a sabedoria prática necessária para deliberar sobre aquilo que não admite respostas automáticas, conceito que atravessou o pensamento ocidental. O mundo mudou, mas a pergunta permanece: que repertório têm aqueles a quem entregamos decisões complexas?

Na era da informação, essa questão tornou-se ainda mais importante. Informação é feita de dados; conhecimento depende da capacidade humana de interpretá-los. Nosso repertório funciona como um software, ampliado pela educação, cultura, experiência e contato com o diferente. Um repertório amplo relaciona fatos, percebe nuances e imagina alternativas. Um repertório estreito pode receber uma quantidade infinita de dados e continuar produzindo respostas limitadas.

Esse é um dos paradoxos do nosso tempo. A tecnologia democratizou o acesso à informação, mas criou filtros poderosos. Algoritmos, interesses políticos e econômicos, meios de comunicação e nossas próprias preferências selecionam o que vemos. Formam-se bolhas em que recebemos mais informação, mas não necessariamente mais diversidade. Quando o repertório não se amplia, o filtro derrota a vantagem informacional.

É aí que cultura e política se encontram. Governar o Brasil que sonhamos significa lidar simultaneamente com educação, pobreza, produtividade, infraestrutura, segurança, tecnologia, meio ambiente, relações internacionais e desigualdades regionais. Nenhum desses problemas pertence a uma única disciplina. Todos exigem conhecimento, experiência, inovação, liberdade intelectual e a maestria de combinar saberes.

Um governo nunca é o governo de um só. Uma das melhores medidas da qualidade de um governante está nas pessoas que consegue atrair. O grande líder não precisa saber mais do que todos; precisa ter repertório para reconhecer excelência, segurança para cercar-se de quem sabe mais do que ele e capacidade de transformar talentos individuais em inteligência coletiva orientada por um projeto.

Aprendi isso pela experiência. Convivi e trabalhei com pensadores como Domenico De Masi e Ignacy Sachs e participei dos governos Fernando Henrique Cardoso, Luiz Henrique da Silveira, Michel Temer e João Doria. Circunstâncias e personalidades muito diferentes, mas governos que ampliaram sua capacidade de realização ao atrair pessoas preparadas e organizar competências distintas em torno de objetivos maiores.

E essa qualidade não pertence a um campo político. Itamar Franco trouxe Fernando Henrique Cardoso e uma cultura de seriedade à condução do Estado; os primeiros governos Lula reuniram alguns dos melhores quadros da esquerda brasileira. Governos diferentes demonstraram, cada um à sua maneira, que a qualidade das equipes importa.

Fernando Henrique trouxe para o governo o repertório do intelectual; Ruth Cardoso mostrou como conhecimento e inovação social podem transformar-se em políticas públicas. Temer reuniu, em meio a uma grave crise, uma equipe experiente para enfrentar uma agenda econômica e institucional igualmente grave. Doria buscou especialistas e gestores reconhecidos. Em Santa Catarina, Luiz Henrique compreendia desenvolvimento, educação e cultura como partes da mesma construção; a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, permanece como símbolo da busca da excelência no mundo para produzir excelência aqui.

Darcy Ribeiro compreendeu educação e cultura como parte da construção de uma nação. De Masi percebeu que conhecimento e criatividade seriam matérias-primas da sociedade pós-industrial. Sachs ensinava a compreender o desenvolvimento em suas dimensões econômica, social e ambiental. A lição que os aproxima é simples: problemas complexos não se resolvem reduzindo a realidade, mas ampliando o repertório com que a interpretamos.

Países que deram grandes saltos entenderam isso. Singapura fez da formação de seus quadros uma estratégia nacional. China e Índia investiram em educação, ciência, engenharia e capacidade administrativa. As democracias europeias construíram instituições e tradições de serviço público que atravessam governos. Sistemas diferentes chegaram à mesma evidência: sociedades complexas exigem governos preparados para a complexidade.

O Brasil, pela dimensão de seus problemas e ainda mais pela dimensão de suas possibilidades, precisa elevar esse padrão. Temos recursos naturais, empresários, cientistas, universidades, artistas e profissionais capazes de competir no mundo. O desafio é transformar essa inteligência dispersa em equipes e projetos de país.

A democracia também precisa aprender a distinguir. Bons governos e maus governos, equipes preparadas e improvisadas, conhecimento e amadorismo não são equivalentes. Quando filtros de interesse e bolhas tornam essas diferenças invisíveis, uma sociedade pode conservar a liberdade de escolher e perder a capacidade de escolher bem.

Por isso, a política deve ser educativa, não deseducativa. Imprensa, universidades, empresários, intelectuais, formadores de opinião e homens públicos deveriam ampliar, e não estreitar, o repertório da sociedade.

Na era da inteligência artificial, informação será abundante; discernimento continuará raro. Para um país do tamanho do Brasil, não basta perguntar quem governará. É preciso perguntar com quem governará, que inteligência será capaz de reunir e que projeto de país conseguirá construir. A democracia nos dá o direito de escolher. Cultura, repertório, formação, experiência e conhecimento nos dão algo igualmente precioso: a capacidade de escolher melhor.

 

 

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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