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O lote marinheiro de Santa Catarina, por Vinicius Lummertz
Com portos estratégicos, pesca consolidada e turismo em expansão, o litoral catarinense se firma como eixo central de crescimento econômico sustentável

O lote marinheiro de Santa Catarina, por Vinicius Lummertz
Santa Catarina reúne condições geográficas únicas que impulsionam a chamada Economia do Mar, conceito que vai muito além da pesca e dos portos, abrangendo turismo, logística, indústria e inovação. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 23/06/2026

Santa Catarina talvez seja o estado brasileiro em que a geografia mais influenciou o destino econômico de sua gente. Poucos lugares reúnem, em um espaço tão compacto, litoral, vales e serra, formando uma unidade territorial capaz de gerar simultaneamente riqueza, qualidade de vida, competitividade econômica e forte identidade cultural. É dessa combinação rara que nasce a chamada Economia do Mar, uma das grandes oportunidades catarinenses para as próximas décadas.

Quando se fala em Economia do Mar, muitos pensam apenas em portos ou pesca. O conceito, entretanto, é muito mais amplo. Abrange a logística portuária, a construção naval, a pesca e a aquicultura, o turismo, a náutica, os esportes marítimos, a pesquisa oceânica, a gastronomia, os serviços e até mesmo a ocupação urbana associada ao litoral.

Santa Catarina reúne praticamente todas essas vocações.

A atividade portuária é um exemplo evidente. Os portos históricos de São Francisco do Sul, Itajaí e Imbituba ajudaram a construir a economia estadual. Mais recentemente, novos polos logísticos, como Navegantes e Itapoá, ampliaram a capacidade competitiva do estado e consolidaram uma das estruturas portuárias mais eficientes do país. Todos possuem projetos de expansão e todos continuarão crescendo, porque a logística já não é uma aposta. É uma vocação madura e consolidada.

 

 

A pesca representa outro pilar dessa economia marítima. Itajaí abriga o maior complexo pesqueiro brasileiro. Laguna preserva uma tradição secular ligada ao oceano e reúne potencial para ampliar sua participação nesse setor. A construção naval segue trajetória semelhante. Santa Catarina tornou-se líder nacional na fabricação de embarcações de lazer, produzindo a grande maioria dos barcos recreativos brasileiros e desenvolvendo uma indústria sofisticada, geradora de empregos qualificados e de valor agregado.

Ao mesmo tempo, o litoral catarinense abriga uma poderosa economia turística, uma crescente atividade náutica, uma cultura ligada à vela, ao surfe, ao mergulho e à pesca esportiva, além de um mercado imobiliário que se tornou referência nacional pela capacidade de atrair investimentos, moradores e empreendedores vindos do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste e também dos países vizinhos do Cone Sul.

Foi para compreender essa realidade que o catarinense Alcides Abreu formulou a ideia do lote marinheiro. Mais do que uma faixa de terra voltada para o oceano, o conceito descreve o maior ativo estratégico de Santa Catarina: a extraordinária integração entre mar, vales e serra. Trata-se de um território em que a proximidade entre os ambientes naturais produziu uma economia diversificada e complementar, algo raro no Brasil e mesmo em muitas regiões do mundo.

A ideia contemporânea de Floriville dialoga diretamente com essa visão. Não como uma cidade única, mas como uma grande região articulada entre Joinville, Itajaí, Balneário Camboriú, Florianópolis e seus entornos, conectada por rodovias, aeroportos, portos, universidades e centros de inovação. Uma economia que se organiza entre o mar e as montanhas e encontra nessa diversidade sua principal força.

Mas, exatamente porque tantas vocações compartilham o mesmo território, o planejamento torna-se indispensável. A expansão portuária, o crescimento urbano, a atividade industrial, os serviços, o turismo, a pesca e as salvaguardas ambientais precisam ser vistos como partes de uma mesma equação. O desafio catarinense não é escolher entre uma vocação e outra. É construir uma convivência inteligente entre todas elas.

Talvez esteja aí a grande tarefa da nossa geração. Não apenas crescer, mas crescer preservando aquilo que nos tornou diferentes. Não apenas ocupar o litoral, mas qualificá-lo. Não apenas explorar o mar, mas compreender que ele, juntamente com a serra e os vales, constitui um patrimônio econômico, ambiental e cultural que pertence também às próximas gerações.

O futuro de Santa Catarina continuará vindo do trabalho, da inovação e do empreendedorismo de sua gente. Mas virá também da inteligência com que soubermos cuidar desse extraordinário lote marinheiro que a geografia nos legou e que a história transformou em nossa maior vantagem competitiva.

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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