Moishe Mana enxerga futuro em Florianópolis
Empresário israelense-americano conheceu o ecossistema catarinense e apontou oportunidades que vão além da tecnologia
Nosso Personagem da Semana é o empresário e investidor israelense-americano Moishe Mana, que esteve na FIESC e no Start Summit e se encantou com o ecossistema catarinense. Com uma trajetória que começou com apenas US$ 800 no bolso e passou por trabalhos simples até chegar aos grandes investimentos internacionais, Mana provocou os empresários a olhar para Florianópolis além da tecnologia e a enxergar na cidade um território fértil para negócios, cultura, criatividade e conexões com o mundo.
A passagem do empresário Moishe Mana por Florianópolis foi muito mais do que uma visita de negócios. Ao conversar com empresários catarinenses, ele deixou uma provocação que atravessa fronteiras, é preciso pensar grande, enxergar oportunidades onde elas ainda não são óbvias e assumir um papel estratégico na construção das cidades e da economia do futuro.
Durante o almoço realizado no dia 26, na FIESC, Mana conquistou a atenção dos empresários presentes com uma palestra objetiva, contundente e, principalmente, provocadora. A apresentação foi realizada em inglês e contou com a excelente tradução de Conrado Morais que garantiu que as ideias do empresário chegassem ao público com precisão. Conrado é natural de Florianópolis, mora em Miami e é o Chief Operating Officer (COO) ou Diretor Operacional da Mana Tech, e principal responsavel pela idealização da ponte Miami - Florianópolis, e pela vinda de Mana à Capital.
Mesmo falando em outro idioma, Mana conseguiu estabelecer uma comunicação direta e envolvente. Seu discurso transitou com naturalidade por temas que normalmente aparecem separados, como economia, negócios, tecnologia, cultura e desenvolvimento urbano. E foi justamente essa capacidade de conectar diferentes mundos que tornou sua passagem pela Capital tão instigante.
Uma cidade é muito mais que seus prédios
Conhecido por seus projetos de revitalização urbana e por sua atuação nos ecossistemas de negócios e inovação de Nova York e Miami, Mana apresentou aos catarinenses uma concepção de desenvolvimento que não se resume a erguer prédios, atrair empresas ou criar novos empreendimentos.
Para ele, cidades competitivas precisam construir ambientes capazes de aproximar tecnologia, empreendedorismo, investimentos e qualidade de vida. É uma visão na qual as pessoas, a cultura e a experiência de viver a cidade também fazem parte da economia.
Entre suas propostas, Mana defendeu que o Brasil, pelo tamanho e pelo peso de sua economia, poderia assumir a liderança na construção de um grande bloco latino-americano. A ideia começaria pela aproximação de economias fortes, como Colômbia, México e Chile, e poderia avançar gradualmente para a integração de outras nações.
A inspiração, segundo essa visão, poderia vir da própria União Europeia, uma integração econômica capaz de transformar países individualmente em uma força global. O projeto poderia chegar, inclusive, à criação de uma moeda única latino-americana.
Mas é quando fala sobre o conceito que levou para o Miami Tech é que a visão de Mana ganha ainda mais personalidade.
Ele não trata tecnologia apenas como sinônimo de empresas, startups, inovação e investimentos. Em sua equação, entram elementos que muitas vezes ficam à margem das discussões sobre desenvolvimento como arte, moda, gastronomia, cultura e lazer.
Na visão do empresário, esses ambientes estimulam a criatividade, aproximam pessoas e podem dar origem a novos negócios. A economia criativa, portanto, não aparece apenas como resultado de uma cidade desenvolvida, mas como uma das forças capazes de impulsionar esse próprio desenvolvimento.
Um dos exemplos mais conhecidos dessa filosofia está em sua atuação na transformação de Wynwood, em Miami, região que passou por um processo de revitalização e se consolidou como polo de arte, cultura, tecnologia, gastronomia e empreendedorismo.
Para Mana, o lazer também tem um papel fundamental na forma como prédios, espaços e pessoas se relacionam. Uma cidade não pode ser pensada apenas como um lugar para trabalhar ou morar.
Sem lazer, cultura, arte e moda, tudo não passa de um amontoado de concreto.
A frase sintetiza uma das ideias que mais chamaram atenção durante sua conversa com os catarinenses.

Em almoço com palestra na FIESC: Roberto Costa, da ONG Floripa Sustentável, o palestrante Moishe Mana, o prefeito Topázio Neto e o host e ex-ministro do Turismo Vinicius Lummertz construindo a futura ponte tecno Florianópolis - Miami.
O que Mana enxergou em Florianópolis?
É justamente essa maneira de enxergar as cidades que ajuda a explicar o interesse do empresário por Florianópolis.
Sua vinda à Capital foi articulada dentro de uma iniciativa voltada à aproximação entre o mercado de tecnologia de Miami e empresas brasileiras. Entusiasta das joint ventures, Mana veio conhecer de perto o ecossistema catarinense e se encantou com o que encontrou.
Florianópolis reúne diversos dos elementos que fazem parte da equação defendida pelo empresário, um ambiente consolidado de inovação e tecnologia, universidades, empresas, startups, economia criativa, turismo, gastronomia, cultura e uma qualidade de vida que também representa um importante ativo econômico.
Para Mana, essa combinação pode ser mais do que uma vantagem para a cidade. Pode se transformar em uma plataforma capaz de conectar Santa Catarina a mercados internacionais.
Durante sua passagem pela Capital, o empresário identificou potencial para o desenvolvimento tecnológico e, principalmente, para a criação de parcerias entre empresas catarinenses e seus negócios em Miami.
A aproximação também reforça a intenção de conectar Florianópolis a Miami, considerada importante porta de entrada para negócios latino-americanos nos Estados Unidos.
A agenda prevê ainda a participação de uma comitiva de Florianópolis, em dezembro, no evento Tech Cities of the Americas, em Miami. A proposta é apresentar o potencial da cidade, ampliar conexões com outros ecossistemas tecnológicos e empresariais e, inclusive, trabalhar para a instalação de um bureau de negócios em solo americano.
Para Florianópolis, a oportunidade é projetar internacionalmente características que já fazem parte de sua identidade, tecnologia, inovação, empreendedorismo, economia criativa e qualidade de vida.
Uma história que começou com US$ 800
Talvez seja justamente sua própria trajetória que explique a facilidade de Mana para enxergar possibilidades onde outras pessoas veem apenas obstáculos.
Aos 21 anos, ele deixou Israel por discordar da política de ocupação de seu país e chegou aos Estados Unidos carregando apenas US$ 800 no bolso.
Como imigrante, enfrentou trabalhos simples, entre eles o de lavador de pratos. Até que uma Kombi abriu o caminho para uma mudança de vida.
Mana comprou o veículo e começou a trabalhar com mudanças e guarda-móveis. Foi a partir desse negócio, construído de maneira gradual, que começou a formar sua fortuna.
Mais tarde, passou a investir em áreas degradadas de Nova Jersey e ganhou espaço no mercado imobiliário. O envolvimento com o mercado de retrofit o aproximou do universo da arte, ampliando sua atuação para diferentes segmentos e consolidando seu perfil de investidor atento a oportunidades que nem sempre estão no lugar mais evidente.
É uma trajetória que ajuda a explicar sua forma de pensar e também a mensagem que deixou em Florianópolis.
Mana aprendeu, na prática, a procurar potencial onde outros enxergam apenas dificuldade. A transformar espaços, negócios e ideias. E, sobretudo, a perceber que grandes oportunidades podem nascer justamente quando diferentes mundos deixam de trabalhar isoladamente e começam a se conectar.
Foi essa visão que ele trouxe para Santa Catarina, olhar para o que a cidade já tem, imaginar o que ainda pode ser construído e entender que tecnologia, sozinha, talvez seja apenas o começo da história.
Edição final: Carolina Beux
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Sobre o autor
Hermann Byron
Diretor geral do Imagem da Ilha, e um dos colunistas de gastronomia do jornal.
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