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Mafalda: um sabor que atravessa gerações
Tradicional lanchonete de Florianópolis mantém receitas, atendimento acolhedor e clientes fiéis após mais de 30 anos.

Mafalda: um sabor que atravessa gerações
Entre memórias afetivas e sanduíches clássicos, a lanchonete continua conquistando diferentes gerações. (Foto: Divulgação)

Publicado em 29/07/2026

E a nossa personagem da semana é Marisete Contin. Aos 73 anos, formada em Letras pela UFSC, ela segue atrás do balcão da Mafalda Sanduíches fazendo exatamente o que escolheu fazer há mais de quatro décadas: preparar sanduíches, receber clientes e conversar com cada pessoa que entra pela porta. Para ela, o que mais emociona depois de tantos anos não é apenas ver a casa cheia, mas a oportunidade de estar perto das pessoas. "Eu amo as pessoas. Adoro conversar", resume.

E esse é um dos meus achados mais recentes em Florianópolis, que me fez voltar cerca de 33 anos no tempo.

Logo que cheguei à cidade, fui trabalhar na agência de publicidade MPM, na Rua Major Costa. Na hora do almoço, seguia caminhando até o extinto Banco Nacional, na Praça XV, para sacar parte do salário. Aproveitava o percurso para conhecer a cidade. Para um carioca recém-chegado, tudo era novidade.

Mas, convenhamos, perto do meio-dia o olhar ficava ainda mais atento. Procurava algum lugar interessante para almoçar ou fazer um lanche.

Foi então que passei em frente à Mafalda Sanduíches. Pensei comigo: "Nome curioso... deve ter alguma relação com a Argentina. Vou entrar para conhecer."

 

Há lugares que alimentam o corpo e também as melhores lembranças. A Mafalda é um deles.

 

A surpresa foi imediata. Uma vitrine repleta de sanduíches preparados com o tradicional pão de miga, aquele pão de forma sem casca tão popular na Argentina, e uma variedade de recheios que despertava a curiosidade. Conversando com a atendente, que depois descobri ser a própria proprietária, conheci um pouco da história da casa e dos sabores. Foi o suficiente para virar freguês.

O nome Mafalda, descobri depois, foi uma ideia do ex-marido de Marisete, o argentino Abel Alberto Battiato. A inspiração veio justamente da tradição argentina dos sanduíches de miga, presença obrigatória em festas, reuniões e lanches do dia a dia. Quando decidiram abrir a loja, em janeiro de 1981, depois de alugarem o imóvel poucos meses antes, trouxeram esse costume para Florianópolis.

Entre os recheios, um logo se tornou símbolo da casa: o sanduíche de berinjela. Hoje ele é o mais pedido, mas, segundo Marisete, quando foi lançado pouca gente sabia conhecia o este sabor da berinjela. A receita, inspirada na forma como o ingrediente é servido de aperitivo nos churrascos argentinos, atravessou décadas e continua sendo a favorita dos clientes, inclusive em encomendas para festas.

Esta semana, depois de um evento na Aliança Francesa, pensei em levar algo para um lanche em casa. E é impressionante como funciona a memória afetiva. Sem pensar muito, veio à cabeça um único nome: Mafalda.

Voltei lá.

E parecia que o tempo tinha resolvido passar mais devagar naquele endereço.

Lá estava Marisete Contin, atrás do balcão, fazendo o que mais gosta: preparando pessoalmente os sanduíches, sugerindo sabores, apresentando pessoas umas às outras e mantendo vivo um atendimento cada vez mais raro nos dias de hoje. Grande parte da produção ainda passa pelas próprias mãos dela. A famosa berinjela continua sendo preparada por Marisete, que também acompanha boa parte do restante da produção da casa.

Os sanduíches continuam impecavelmente expostos. Alguns mais elaborados, com berinjela marinada, azeitonas, tomate e maionese; outros mais simples, mas igualmente deliciosos. Todos preparados com o mesmo cuidado que conquistou clientes há décadas.

As mesas continuam ocupadas pelos frequentadores de sempre. Muitos deles acompanham a Mafalda há mais de 40 anos. As caixas de cerveja seguem ao fundo. A rotina permanece quase intacta, como se a cidade tivesse decidido preservar aquele pequeno pedaço de sua história.

Manter essa tradição, porém, nunca foi simples. Marisete conta que um dos maiores desafios sempre foi produzir o pão de miga, desde encontrar um forno adequado até conseguir um bom padeiro, uma dificuldade que permanece até hoje. Ainda assim, a perseverança falou mais alto.

Em tempos em que tantos negócios surgem e desaparecem rapidamente, reencontrar a Mafalda é celebrar muito mais do que um bom sanduíche. É reconhecer o valor da perseverança, da dedicação e da coragem de quem transformou uma tradição argentina em um dos endereços mais afetivos de Florianópolis.

Alguns lugares alimentam o estômago. Outros alimentam também as nossas melhores lembranças.

Quer conhecer a Mafalda? O local abre diariamente após as 19h, menos nos domingos e feriados. E está localizado no ínicio da Rua José Jacques 172, quase na esquina com a Av. Hercílio Luz. 

 

 

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Sobre o autor

Hermann Byron

Hermann Byron

Diretor geral do Imagem da Ilha, e um dos colunistas de gastronomia do jornal.


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