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Coloque a Itália em dia, por Karin Verzbickas
Um guia opinativo pela 13ª Festa do Cinema Italiano

Coloque a Itália em dia, por Karin Verzbickas
De Nanni Moretti em cópia restaurada ao Modigliani de Johnny Depp, da Goliarda Sapienza de Mario Martone a um road movie etílico pelo Vêneto — o que ver, o que correr para ver, e o que vai dar conversa nos próximos meses. (Foto: Divulgação)

Publicado em 28/06/2026

Há festivais que são vitrines e há festivais que são bússolas. O 8½ Festa do Cinema Italiano, que desembarcou nesta quinta-feira em dezessete cidades brasileiras, inclusive Floripa, é, há treze edições, uma bússola — daquelas que não apontam o norte óbvio, mas o norte que interessa. Até quarta-feira, 1º de julho, dez filmes recém-saídos de Cannes, Veneza e do David di Donatello chegam às nossas salas para fazer o que o streaming, com toda sua abundância, raramente consegue: organizar o estado atual de uma cinematografia. E a cinematografia em questão — a italiana — anda, vale dizer, em forma surpreendente.

A primeira observação, antes de qualquer recomendação, é sobre curadoria.

Reunir, no mesmo programa, um clássico restaurado de Nanni Moretti, o retorno de Johnny Depp à direção, o novo Mario Martone, um road movie premiadíssimo, uma biografia operística de Vivaldi, um thriller político baseado em fato real, um drama sobre homofobia escolar, uma adaptação de Michela Murgia dirigida por Isabel Coixet, um documentário ítalo-brasileiro sobre os pioneiros do nosso cinema e uma contemplação monástica sobre dois cordeiros que vestem o Papa não é simplesmente “escolher dez filmes”. É traçar uma cartografia. Dito isso, vamos ao mapa.

O imperdível absoluto

Se você só puder ver um filme nesta Festa, veja Caro Diário. Sei que parece contraintuitivo recomendar, como destaque máximo, um longa de 1993 dentro de uma mostra dedicada à produção recente. Mas é precisamente aí que reside a
inteligência do gesto curatorial: a cópia restaurada do filme de Nanni Moretti — David di Donatello de Melhor Filme, prêmio de direção em Cannes — é o tipo de evento que justifica, sozinho, a existência de um festival. Rever Caro Diário em sala, e não em uma janelinha do MUBI, é redescobrir o que a tela grande faz com a ironia mansa, com o passeio de Vespa por uma Roma vazia em agosto, com aquela melancolia luminosa que Moretti inventou e que praticamente fundou um 
modo italiano de se filmar a si mesmo. É também o tipo de filme que conversa, em surdina, com quase tudo o que vem depois nesta mostra — do humor lírico de A Última Rodada à introspecção feminina de Fuori. Ir ao cinema por ele é, no fundo, ir ao cinema pelo cinema.

Os dois grandes acontecimentos contemporâneos

Fuori, de Mario Martone, é o filme que separa os cinéfilos dos espectadores ocasionais — e os trata muito bem aos dois. Selecionado para a competição principal de Cannes 2025, é uma biografia oblíqua de Goliarda Sapienza, a escritora siciliana que escreveu A arte da alegria sem encontrar editor em vida e que, em 1980, foi presa por ter roubado joias de uma amiga. Martone não está interessado no escândalo, e sim no que vem depois: o encontro de Sapienza, na prisão romana de Rebibbia, com mulheres muito mais jovens que reorganizam, com violência delicada, a sua relação com a liberdade. Valeria Golino, no papel central, faz uma daquelas atuações que se discute por temporadas. Há um caos aparente na encenação, e há uma intensidade emocional submersa — a combinação é rara, e é a marca de Martone em seu melhor estado de forma. O segundo grande acontecimento é, previsivelmente, o mais comentado: Modi — Três dias nas asas da loucura, o retorno de Johnny Depp à direção depois de vinte e nove anos. Adaptado de uma peça de 1980 de Dennis McIntyre, com roteiro dos veteranos Jerzy e Mary Olson-Kromolowski, e com Al Pacino e Riccardo Scamarcio no elenco que cerca o Modigliani de Riccardo Scamarcio, o filme é, antes de tudo, uma curiosidade legítima — e essa categoria importa em um festival. Depp dirige com a liberdade de quem não tem nada a provar, o que produz tanto momentos de irritante autocomplacência quanto sequências de inesperada graça boêmia. É um filme imperfeito, mas é o tipo de imperfeição que dá conversa. Vá preparado para discutir.

O que vai virar consenso em seis meses

Anote o nome: A Última Rodada (Le città di pianura), de Francesco Sossai. Saiu de Cannes 2025, da seção Un Certain Regard, com um zumbido — e voltou para a Itália para varrer o David di Donatello: oito prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Direção. É um road movie cômico-melancólico que segue dois cinquentões em uma deriva etílica pelas planícies do Vêneto, com um jovem estudante de arquitetura a tiracolo. Há um parentesco evidente com Il Sorpasso, de Dino Risi — e parentesco assumido, não copiado. Sossai filma os bares de beira de estrada como quem filma catedrais. É o tipo de filme que ainda não chegou ao discurso brasileiro, mas vai chegar; ver agora é a vantagem competitiva de quem acompanha a Festa.

Na mesma chave de “estará em toda lista de melhores do ano”, coloque Primavera, de Damiano Michieletto. É a estreia, no longa-metragem, de um dos diretores de ópera mais celebrados da Europa contemporânea — e a presença do palco se sente no enquadramento, na luz, no tempo dos gestos. Cecilia, violinista de vinte anos confinada em um orfanato veneziano para meninas, conhece um certo Antonio Vivaldi e o mundo começa a rachar. O roteiro, de Ludovica Rampoldi com o próprio Michieletto, parte do romance Stabat Mater, de Tiziano Scarpa. É um filme sobre vocação, sobre clausura, sobre o que a música faz com uma vida que ninguém escolheu. Para quem ama cinema de época que não cheira a museu, é um achado.

O thriller que merece atenção

O Negociador (Il Nibbio), de Alessandro Tonda, é o filme mais politicamente urgente da mostra. Reconstrói os vinte e oito dias que antecederam a morte de Nicola Calipari, o agente do SISMI apelidado de Il Nibbio que, em 2005, foi morto por fogo americano em Bagdá durante a operação que libertou a jornalista Giuliana Sgrena. Vinte anos depois, com a Itália reabrindo arquivos e o Iraque ainda assombrando o imaginário europeu, o filme funciona como um exercício de memória política — gênero raro e necessário. Tonda evita o panfleto e o melodrama; sua câmera é tensa, próxima, quase processual. Recomendado especialmente para quem gosta de pensar o cinema como forma de jornalismo lento.

Os filmes que vão fazer chorar — cada um a seu modo

O Menino da Calça Rosa (Il ragazzo dai pantaloni rosa), de Margherita Ferri, foi o fenômeno popular do cinema italiano em 2025: mais de um milhão e meio de espectadores em casa. Conta a história real de Andrea Spezzacatena, de quinze
anos, primeiro caso reconhecido na Itália de suicídio juvenil provocado por homofobia, bullying e cyberbullying — tudo desencadeado, absurdamente, por uma calça vermelha que saiu cor-de-rosa da máquina de lavar. É um filme difícil de ver e impossível de descartar. A direção de Ferri evita a estetização da dor; o 
livro da mãe de Andrea, que serve de base, garante que a história não vire tese. Vá com tempo para conversar depois.

Três Vezes Adeus (Tre ciotole), de Isabel Coixet

A diretora catalã, agora em italiano —, adapta o livro homônimo da queridíssima Michela Murgia, escritora sarda morta em 2023. Alba Rohrwacher e Elio Germano formam o casal Marta e Antonio, que se separa depois de uma discussão aparentemente banal. Ela perde, subitamente, o apetite; ele, chef em ascensão, mergulha na cozinha como quem mergulha numa fuga. Coixet trabalha bem o silêncio entre dois corpos que se desconhecem após anos de intimidade. Para fãs de Rohrwacher — e devíamos todos ser fãs de Rohrwacher —, ingresso obrigatório.

Os dois documentários que vão ficar com você

Os Irmãos Segreto (I fratelli Segreto), de Federico Ferrone e Michele Manzolini, é o filme mais especificamente brasileiro desta Festa, ainda que falado em italiano e produzido na Itália. Reconstrói a trajetória de Pasquale, Gaetano e Alfonso Segreto, imigrantes que praticamente inventaram o cinema no Brasil entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do XX. A versão brasileira, com narração de Paulo Betti, é uma cortesia que ressignifica o gesto: estamos diante da nossa própria pré-história cinematográfica contada de fora — e melhor, contada por quem tem o arquivo. Imperdível para quem se interessa por história do cinema, por imigração italiana, ou simplesmente por boas histórias de família.

Agnus Dei, de Massimiliano Camaiti,

Exibido no último Festival de Veneza, é o oposto programático de tudo o que se costuma chamar de documentário “de assunto”. Acompanha, com paciência beneditina, a rotina do Mosteiro de Santa Cecília em Trastevere, onde, todo mês de janeiro, dois cordeiros recém-nascidos são entregues aos cuidados de uma freira de clausura. A lã desses cordeiros tece o pálio que o Papa veste em 29 de junho, na solenidade de São Pedro e São Paulo.

No Ano Santo de 2025, durante o ritual, o Papa adoece. O filme estava lá. É contemplação no sentido forte da palavra — e talvez, no meio de uma semana de dramas, biografias e thrillers, seja exatamente o filme que faltava para
reequilibrar a programação. Um roteiro possível para a semana Se a sua disponibilidade for de três sessões, vá em Caro Diário (pelo cinema), Fuori (pelo presente) e A Última Rodada (pelo futuro imediato). Se forem cinco, 
acrescente Primavera e Os Irmãos Segreto. Se você puder fazer a semana inteira — e eu, modestamente, faria —, complete com O Negociador, Agnus Dei, Três Vezes Adeus, O Menino da Calça Rosa e, claro, Modi, para ter do que falar no jantar.

E por que tudo isso importa?

Em um momento em que as salas brasileiras disputam público com algoritmos cada vez mais inteligentes em prever o que vamos consumir, festivais como o 8½ funcionam como contra-algoritmos: oferecem aquilo que ninguém pediria, exatamente porque ninguém sabia que queria. A Itália é, hoje, uma das cinematografias mais vivas da Europa — talvez a mais viva, agora que o cinema francês atravessa uma fase de autorreferência cansada e que o espanhol parece preso entre o thriller e o melodrama. Há uma geração italiana — Martone, Sossai, Michieletto, Ferri, Camaiti — que está fazendo filmes maduros, formalmente curiosos e politicamente conscientes. Entao, deixe o sofá de sua casa em paz e vá ao cinema. Até quarta-feira, todos eles estão a um ingresso de distância. Em Floripa, no Paradigma Cine Arte.

 

 

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Sobre o autor

Karin Verzbickas

Karin Verzbickas

Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha


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