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Cinemas de rua: tendência ou resistência? Por Karin Verzbickas
A curadoria de excelência, o design do espaço, o repertório histórico, o conforto tecnológico, a boa gastronomia embutida no pacote. Eis a fórmula que está trazendo de volta os antigos de cinemas de rua para as cidades.

Cinemas de rua: tendência ou resistência? Por Karin Verzbickas
A beleza do Cine Odeon, agora na abertura do Festival de Cinema do Rio. (Fotos: Divulgação)

Publicado em 22/10/2026

O movimento da volta da valorização do cinema de rua é mundial. Rio de janeiro, São Paulo, Recife, Porto Alegre, Paris, Nova York, Londres, Tokyo, Buenos Aires... não há uma grande cidade em quaisquer continentes que, depois de décadas vivendo o boom dos cinemas de shopping e a imposição de franquias hollywoodianas, não estejam agora anunciando novidades na recuperação de espaços antigos de projeção ou na criação de novas salas, cheias de design e tecnologia. E os exemplos são muitos.

 

Cine Copan fechado por 40 anos recebe investimentos de 68 milhões de reais e reabre em 2027.

 

Old, but gold

Em São Paulo, cidade que como tantas outras viu seus espaços de cinema de rua transformarem-se em igrejas ou cine pornô, foi uma das mais resistentes à hegemonia dos cinemas de shopping. Preserva até hoje endereços icônicos como o Cine Belas Artes na Consolação, o Cine Sesc da Augusta, o Marabá da Avenida Ipiranga ou o Cine Marquise no Conjunto Nacional. Estes, ao lado de outros bravos guerreiros como o Reserva Cultural ou o Cine Bijou, assistem à entrada de novos operadores, parte utilizando estruturas antes também ocupadas pelas telonas. É o caso do Cine Copan, anunciado para abrir em junho do ano que vem com o peso da Nubank (vai se chamar Nu Cine Copan) e do Cine Rosário, no histórico edifício Martinelli, que funcionou originalmente de 1929 até final da década de 50.

 

Rosário, cinema de luxo que será reaberto no Martinelli após 70 anos fechado.

 

Junte-se ainda a eles propostas já em funcionamento como o recém-inaugurado Cine Tutu, na Vila Madalena. O projeto foi idealizado e é liderado pelo empresário Paulo Velasco em parceria com sua esposa, Priscila Passos. Velasco é uma figura carimbada no resgate da boemia e da cultura de rua em São Paulo. Ele também está por trás da operação da consagrada Cinesala, em Pinheiros (outro grande símbolo de cinema de bairro que sobreviveu e prosperou).

 

Cine Tutu, poltronas florais e projeto de Isay Weinfeld.

 

O cinema ocupa um imóvel que originalmente havia sido concebido para abrigar um teatro, mas passou anos sem uso. Paulo Velasco convidou o renomado arquiteto Isay Weinfeld, que inovou colocando poltronas florais ultra confortáveis, quebrando um pouco aquele conceito das poltronas vermelhas ou num único tom, invariavelmente utilizadas em salas de cinema.

País afora, espaços antes subjugados, voltam a imperar com força, seja pela sua arquitetura histórica e resistência ao longo dos anos – como o Cine Odeon, no Rio de Janeiro, seja pelo seu conceito independente e ponto de encontro de intelectuais e cinéfilos de carteirinha, como é o caso do Cine Passeio, em Curitiba.

 

Cine Marabá, história, cobogós e boa curadoria.

 

Glamourousos e instagramáveis

É inegável que nestes novos espaços que surgem, assim como naqueles que estão sendo revitalizados, há um ponto em comum: investimentos que unem gastronomia, música e design retrô/moderno, além de uma boa tecnologia de áudio e vídeo. O apelo estético transformou esses espaços em pontos de encontro da moda e do lifestyle. Exatamente o que acontece em cidades como Londres, Buenos Aires e Tokyo, que adotaram as chamadas “art house cinemas”.

Conteúdo e curadoria de excelência

E em todo esse movimento, bom mesmo é ver que não se trata só de um rostinho bonito (design, tecnologia, ambientes hypados) mas principalmente da curadoria de excelência que leva para a telona filmes cult, independentes, recém-chegados de festivais internacionais ou garimpados nas fases áureas do cinema mundial. Ninguém investe num cinema antigo, na revitalização de um espaço histórico, e correndo todos os riscos de naufragar na bilheteria escassa, para colocar na programação clichês comerciais, de franquias óbvias, digestão rápida e em geral produções americanas rasas exibidas em versões dubladas.

Os cinemas de shopping operam no modelo de escala. Eles precisam de milhares de pessoas comprando ingressos de filmes fáceis e combos caros de pipoca para pagar os altos custos de aluguel e condomínio. A programação precisa ser o mais homogênea e comercial possível para atrair as massivas massas de consumidores.

Já os cinemas de rua independentes operam no modelo de nicho e comunidade. Eles sabem que não conseguem competir em número de salas com as multinacionais, então travam sua batalha na curadoria afetiva. O espectador do cinema de rua não quer apenas "ver um filme"; ele busca uma curadoria em que confia, um ambiente aconchegante para tomar um café ou um vinho, e a chance de ver histórias que provocam reflexão e que não seriam encontradas em nenhum outro lugar da cidade.

Saiba mais sobre os cinemas de rua

A urgência em registrar e discutir o desaparecimento, a resistência e o renascimento das salas de bairro geraram produções cinematográficas documentais de destaque. Sugiro dar uma espiada na série "Cinemas de Rua", lançada recentemente pelo canal CINEBRASiLTV. Destaque para o episódio de estreia resgata a história do lendário Cinema Rian (localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro). O filme narra a iniciativa de sua idealizadora, Nair de Teffé (cartunista sob o pseudônimo de Rian, atriz e ex-primeira-dama do Brasil), que usou sua herança para fundar o cinema em 1932 como um ato de resistência cultural, retratando o fechamento do espaço anos mais tarde como o encerramento de uma era de ouro. Pode ser assistido no canal do Cine Brasil TV, no Youtube.

Não deixe de assistir ao documentário "Cine Rio Branco" (Dirigido por Eudaldo Monção Júnior). A produção viaja até a cidade de Nazaré, no Recôncavo Baiano, para registrar a história do Cine Rio Branco. Fundado em 1927, ele é considerado um dos cinemas de rua mais antigos do país ainda em funcionamento. O filme costura imagens de arquivo e depoimentos de moradores para mostrar como esse prédio histórico de arquitetura Art Nouveau sobreviveu às crises econômicas do setor e continua sendo um polo de democratização da cultura no interior do Nordeste. Pode ser assistido no Canal Futura.

Quer mais? Então aguarde porque os irmãos Ilaine e Ivan Melo, da Cup Filmes, estão fazendo uma super pesquisa para um documentário que irão produzir sobre Cinemas de Rua. Avisarei por aqui.

 

 

 

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Sobre o autor

Karin Verzbickas

Karin Verzbickas

Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha


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