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A vertigem brasileira, por Vinicius Lummertz

A vertigem brasileira, por Vinicius Lummertz
O Brasil reúne condições estratégicas para crescer, mas enfrenta baixa produtividade, juros elevados, insegurança jurídica, burocracia e investimento insuficiente. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 25/08/2026

Kierkegaard chamou a angústia de vertigem da liberdade. Diante do precipício, não sentimos apenas medo de cair, mas a inquietante consciência de que podemos dar o passo que nos fará cair. Milan Kundera percebeu algo ainda mais perturbador: o vazio não apenas assusta, também nos atrai. Nietzsche completou a advertência: quando contemplamos longamente o abismo, ele também passa a olhar para nós.

Talvez os três ajudem a compreender o Brasil de hoje. Conhecemos nossos problemas, enxergamos o precipício e, ainda assim, parecemos caminhar em sua direção. De tanto contemplá-lo, corremos o risco de incorporá-lo à paisagem e considerar normal aquilo que deveria ser intolerável.

Isso acontece justamente quando o mundo abre uma janela extraordinária para o Brasil. Alimentos, água, petróleo, energia renovável, minerais críticos, biodiversidade, território e escala de mercado nunca foram tão estratégicos. A reorganização das cadeias produtivas valoriza o que temos, e nossa posição permite conversar com Estados Unidos e China, Europa, Índia, Oriente Médio e África. O mundo precisa de muito daquilo que o Brasil possui.

E caminhamos na direção contrária.

A economia conhece a maldição dos recursos naturais: a abundância pode produzir acomodação, rentismo e disputa pela riqueza existente em lugar da obsessão por criar riqueza nova. Talvez tenhamos desenvolvido uma variante própria: a maldição da supernatureza.

Temos tanto que imaginamos haver sempre outra oportunidade. Perdemos um ciclo e esperamos o próximo. Desperdiçamos uma década e sobrevivemos. Adiamos reformas, bloqueamos investimentos, aumentamos custos e continuamos de pé. Terra, água, sol, vento, petróleo, minérios e florestas funcionam quase como um seguro contra nossos erros. A abundância que deveria nos impulsionar talvez tenha nos ensinado também a conviver com a mediocridade.

Austregésilo de Athayde dizia que o Brasil era maior que o abismo. Talvez seja. Mas ser maior que o abismo não impede um país de passar décadas entalado nele.

E o nosso abismo não é filosófico. Está nas dezenas de milhões de brasileiros inadimplentes, nos milhões de empresas endividadas, no crédito caro, na baixa produtividade, no investimento insuficiente e numa classe média que luta para ascender e para não retroceder. Como pode um país tão rico produzir tanta escassez?

Conhecemos boa parte das respostas. Desequilíbrio fiscal cobra juros, juros altos sufocam investimentos, insegurança jurídica afasta capital, burocracia paralisa projetos e educação insuficiente perpetua desigualdades. A vertigem brasileira talvez esteja justamente nisso: conhecer o caminho da queda e continuar percorrendo-o.

Chegamos a 2026 sob o risco de realizar uma eleição dentro do abismo. Discutimos candidatos, pesquisas, alianças, rejeições, escândalos e estratégias, enquanto a pergunta fundamental permanece lateral: qual é o projeto para tirar o Brasil daqui? Podemos trocar os ocupantes do poder e continuar no mesmo lugar.

E há uma questão moral nisso. Desenvolvimento econômico e social não é apenas PIB. Significa oportunidades, mobilidade social, realização de sonhos, perspectivas para os jovens, liberdade de escolha e busca de maior equidade. Desenvolvimento tem caráter moral porque amplia as possibilidades da vida.

Por isso, não é apenas a imoralidade — corrupção, fraude, privilégios — que nos afasta da prosperidade. Existe algo mais difícil de identificar: a amoralidade. Ela não precisa roubar; basta ignorar as consequências. Esconde-se na burocracia, nos interesses corporativos, nas decisões aparentemente técnicas e na indiferença diante das oportunidades perdidas.

Seus responsáveis são muitos e, ao final, parece não haver nenhum. São os Pilatos do desenvolvimento, lavando as mãos diante de perdas que não aparecem imediatamente. O investimento que não aconteceu não protesta. A empresa que não nasceu não aparece. O emprego que não foi criado não tem sindicato. O sonho que morreu antes de existir não entra nas estatísticas. O custo da não prosperidade é silencioso.

Construir uma sociedade majoritariamente de classe média deveria, portanto, ser compromisso anterior à disputa política. Direita e esquerda podem divergir sobre os caminhos, mas não sobre o destino. Prosperidade deveria ser compromisso nacional.

Kierkegaard viu a vertigem diante da possibilidade da queda; Kundera, a atração pelo vazio; Nietzsche, o perigo de contemplarmos o abismo por tempo demais.

Athayde acreditava que o Brasil era maior que o abismo. Provavelmente é. Nossa tragédia é outra: somos grandes e ricos o suficiente para sobreviver dentro dele. A eleição de 2026 deveria decidir não quem vai administrá-lo, mas como finalmente sairemos dele.

 

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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