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A lição oculta do pix, por Vinicius Lummertz
Considerado um marco da modernização financeira, o Pix reacende o debate sobre o valor das instituições públicas e da construção coletiva no Brasil

A lição oculta do pix, por Vinicius Lummertz
O Pix revolucionou a forma como os brasileiros realizam pagamentos e transferências, mas sua principal contribuição pode estar além da tecnologia. (Charge: Ed Carlos) ***Clique para ampliar imagem

Publicado em 09/06/2026

E se a inovação mais transformadora do Brasil nas últimas décadas estiver sendo interpretada da forma errada?

Enquanto políticos disputam a paternidade do Pix e torcidas ideológicas tentam reivindicá-lo como troféu, uma questão muito mais importante passa despercebida.

O verdadeiro significado do Pix não está em quem o criou.

Está no que ele revela sobre a capacidade do Brasil de construir algo extraordinário.

O debate recente sobre o Pix diz muito sobre o Brasil, mas não exatamente sobre pagamentos digitais.

Diz sobre nossa dificuldade de reconhecer como as grandes realizações nacionais realmente acontecem.

O Pix voltou ao centro da política. Uns o transformam em símbolo de soberania nacional. Outros o utilizam como arma na disputa partidária. Há quem procure um pai. Há quem procure um dono.

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

O que torna o Pix extraordinário não é sua autoria.

É sua trajetória.

Poucas inovações brasileiras alcançaram tamanho impacto em tão pouco tempo. Milhões de pessoas passaram a realizar transferências instantâneas. Pequenos comerciantes reduziram custos. A inclusão financeira avançou. O sistema bancário tornou-se mais competitivo. O dinheiro passou a circular com velocidade e eficiência inéditas.

Mas a verdadeira história do Pix não é tecnológica.

É institucional.

O projeto começou a ser concebido durante a gestão de Ilan Goldfajn no Banco Central, no governo Michel Temer. Foi desenvolvido, estruturado e lançado durante a gestão de Roberto Campos Neto, no governo Jair Bolsonaro. Foi incorporado ao cotidiano nacional pelos governos seguintes.

Nenhuma dessas etapas pode ser retirada da narrativa sem empobrecê-la.

Mais importante do que identificar quem participou de cada fase é compreender que não existe um protagonista único nessa história.

Diferentes atores contribuíram em momentos decisivos para que o projeto chegasse onde chegou.

O mérito não pertence a uma única pessoa, governo ou partido.

Pertence a todos que ajudaram a transformar uma ideia em realidade.

Sobretudo, pertence aos técnicos do Banco Central.

Num país acostumado a associar o Estado à burocracia e à lentidão, o Pix mostrou exatamente o contrário. Mostrou que instituições públicas dotadas de autonomia, competência técnica, metas claras e continuidade administrativa podem produzir inovação de classe mundial.

Essa talvez seja a verdadeira notícia.

O Brasil possui ilhas de excelência institucional capazes de competir com o que existe de mais avançado no mundo.

A Embrapa fez isso na agricultura tropical.

O ITA ajudou a formar a engenharia que deu origem à Embraer.

O Banco Central fez isso nos meios de pagamento.

São exemplos de algo precioso e raro: inteligência institucional acumulada.

Talvez esse seja um dos conceitos mais negligenciados do debate público brasileiro.

Países desenvolvidos não acumulam apenas capital.

Acumulam conhecimento, instituições, experiência e políticas públicas bem-sucedidas.

O Brasil, ao contrário, frequentemente se comporta como uma nação condenada a recomeçar a cada eleição.

Mudam os governos e, muitas vezes, tenta-se reescrever a história das realizações anteriores. Projetos passam a ser julgados menos por seus resultados do que por sua origem política.

É um erro caro.

Grandes políticas públicas raramente nascem prontas. Quase nunca pertencem a um único governo. Exigem anos de formulação, aperfeiçoamento, testes, correções e continuidade.

O Plano Real atravessou diferentes administrações antes de sua consolidação.

O Bolsa Família incorporou experiências anteriores, como o Bolsa Escola.

A Embraer e a Embrapa também são resultados de décadas de construção institucional.

O Pix pertence a essa mesma tradição.

A tradição das obras coletivas e das políticas que conseguem sobreviver aos calendários eleitorais.

Talvez por isso ele tenha adquirido uma dimensão que vai além dos pagamentos digitais. Em meio às recentes tensões entre Brasil e Estados Unidos, o Pix passou a ser visto por muitos brasileiros como um símbolo de competência nacional, uma demonstração de que o país é capaz de criar soluções eficientes, modernas e amplamente adotadas pela população.

Mas sua maior contribuição talvez seja outra.

O Pix nos lembra que as melhores políticas públicas raramente cabem dentro de um único mandato.

São construções coletivas que exigem tempo, continuidade e instituições sólidas.

Num momento em que o Brasil parece cada vez mais prisioneiro do conflito permanente, o Pix oferece uma lição simples e poderosa.

Michel Temer teve o mérito de apoiar o início da agenda. Ilan Goldfajn ajudou a conceber suas bases. Roberto Campos Neto liderou sua implementação, e Lula, de defendê-lo neste momento. Equipes técnicas do Banco Central transformaram o projeto em realidade. Os governos seguintes o preservaram e a sociedade brasileira o adotou de forma massiva.

É assim que as democracias maduras funcionam.

As maiores conquistas nacionais surgem quando a técnica consegue sobreviver à política.

E quando o país consegue ser maior do que a polarização.

Essa talvez seja a verdadeira lição oculta do Pix.

 

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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