A lição oculta do pix, por Vinicius Lummertz
Considerado um marco da modernização financeira, o Pix reacende o debate sobre o valor das instituições públicas e da construção coletiva no Brasil
E se a inovação mais transformadora do Brasil nas últimas décadas estiver sendo interpretada da forma errada?
Enquanto políticos disputam a paternidade do Pix e torcidas ideológicas tentam reivindicá-lo como troféu, uma questão muito mais importante passa despercebida.
O verdadeiro significado do Pix não está em quem o criou.
Está no que ele revela sobre a capacidade do Brasil de construir algo extraordinário.
O debate recente sobre o Pix diz muito sobre o Brasil, mas não exatamente sobre pagamentos digitais.
Diz sobre nossa dificuldade de reconhecer como as grandes realizações nacionais realmente acontecem.
O Pix voltou ao centro da política. Uns o transformam em símbolo de soberania nacional. Outros o utilizam como arma na disputa partidária. Há quem procure um pai. Há quem procure um dono.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
O que torna o Pix extraordinário não é sua autoria.
É sua trajetória.
Poucas inovações brasileiras alcançaram tamanho impacto em tão pouco tempo. Milhões de pessoas passaram a realizar transferências instantâneas. Pequenos comerciantes reduziram custos. A inclusão financeira avançou. O sistema bancário tornou-se mais competitivo. O dinheiro passou a circular com velocidade e eficiência inéditas.
Mas a verdadeira história do Pix não é tecnológica.
É institucional.
O projeto começou a ser concebido durante a gestão de Ilan Goldfajn no Banco Central, no governo Michel Temer. Foi desenvolvido, estruturado e lançado durante a gestão de Roberto Campos Neto, no governo Jair Bolsonaro. Foi incorporado ao cotidiano nacional pelos governos seguintes.
Nenhuma dessas etapas pode ser retirada da narrativa sem empobrecê-la.
Mais importante do que identificar quem participou de cada fase é compreender que não existe um protagonista único nessa história.
Diferentes atores contribuíram em momentos decisivos para que o projeto chegasse onde chegou.
O mérito não pertence a uma única pessoa, governo ou partido.
Pertence a todos que ajudaram a transformar uma ideia em realidade.
Sobretudo, pertence aos técnicos do Banco Central.
Num país acostumado a associar o Estado à burocracia e à lentidão, o Pix mostrou exatamente o contrário. Mostrou que instituições públicas dotadas de autonomia, competência técnica, metas claras e continuidade administrativa podem produzir inovação de classe mundial.
Essa talvez seja a verdadeira notícia.
O Brasil possui ilhas de excelência institucional capazes de competir com o que existe de mais avançado no mundo.
A Embrapa fez isso na agricultura tropical.
O ITA ajudou a formar a engenharia que deu origem à Embraer.
O Banco Central fez isso nos meios de pagamento.
São exemplos de algo precioso e raro: inteligência institucional acumulada.
Talvez esse seja um dos conceitos mais negligenciados do debate público brasileiro.
Países desenvolvidos não acumulam apenas capital.
Acumulam conhecimento, instituições, experiência e políticas públicas bem-sucedidas.
O Brasil, ao contrário, frequentemente se comporta como uma nação condenada a recomeçar a cada eleição.
Mudam os governos e, muitas vezes, tenta-se reescrever a história das realizações anteriores. Projetos passam a ser julgados menos por seus resultados do que por sua origem política.
É um erro caro.
Grandes políticas públicas raramente nascem prontas. Quase nunca pertencem a um único governo. Exigem anos de formulação, aperfeiçoamento, testes, correções e continuidade.
O Plano Real atravessou diferentes administrações antes de sua consolidação.
O Bolsa Família incorporou experiências anteriores, como o Bolsa Escola.
A Embraer e a Embrapa também são resultados de décadas de construção institucional.
O Pix pertence a essa mesma tradição.
A tradição das obras coletivas e das políticas que conseguem sobreviver aos calendários eleitorais.
Talvez por isso ele tenha adquirido uma dimensão que vai além dos pagamentos digitais. Em meio às recentes tensões entre Brasil e Estados Unidos, o Pix passou a ser visto por muitos brasileiros como um símbolo de competência nacional, uma demonstração de que o país é capaz de criar soluções eficientes, modernas e amplamente adotadas pela população.
Mas sua maior contribuição talvez seja outra.
O Pix nos lembra que as melhores políticas públicas raramente cabem dentro de um único mandato.
São construções coletivas que exigem tempo, continuidade e instituições sólidas.
Num momento em que o Brasil parece cada vez mais prisioneiro do conflito permanente, o Pix oferece uma lição simples e poderosa.
Michel Temer teve o mérito de apoiar o início da agenda. Ilan Goldfajn ajudou a conceber suas bases. Roberto Campos Neto liderou sua implementação, e Lula, de defendê-lo neste momento. Equipes técnicas do Banco Central transformaram o projeto em realidade. Os governos seguintes o preservaram e a sociedade brasileira o adotou de forma massiva.
É assim que as democracias maduras funcionam.
As maiores conquistas nacionais surgem quando a técnica consegue sobreviver à política.
E quando o país consegue ser maior do que a polarização.
Essa talvez seja a verdadeira lição oculta do Pix.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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