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Hassis – um artista que soube olhar para a cidade que o acolheu, por Fernando Teixeira

Hassis – um artista que soube olhar para a cidade que o acolheu, por Fernando Teixeira
Hassis - um artista que soube olhar para sua cidade. (Foto: Instituto Collaço Paulo)

Publicado em 02/09/2026

Nascido em Curitiba, em 27 de julho de 1926, Hassis (Hiedy de Assis Corrêa) chegou a Florianópolis aos dois anos de idade. Foi nesta ilha carregada de encantos que cresceu, viveu e construiu uma obra que se tornou uma das mais importantes referências visuais do lugar que o adotou como filho. Neste ano em que se comemora o centenário de seu nascimento, uma série de atividades vem sendo realizadas com o intuito de reverenciar este grande talento.

Olhar para Hassis, revisitar sua extensa produção, tantos anos depois é, de certa maneira, olhar para diferentes Florianópolis: aquela que ele conheceu e registrou ao longo do século XX e esta que hoje estamos construindo, tão diferente, que procura, a todo custo, resistir às profundas transformações que vem sofrendo, lutando para que não lhe apaguem por completo sua memória.

Hassis pode ser considerado um dos grandes cronistas visuais de Florianópolis. Tinha um olhar extremamente atento para a cidade. Não estava interessado apenas em suas paisagens, mas principalmente naquilo que lhes dava vida: as pessoas, as festas, o folclore, os pescadores, o carnaval, o porto e os acontecimentos do dia a dia. Era uma Florianópolis bem menor, mais próxima, mais ligada ao mar e às tradições. Em Vento Sul com Chuva, de 1957, por exemplo, transformou em arte uma experiência tão familiar aos moradores da cidade. Mais tarde, levou motivos do folclore ilhéu para os mosaicos de cinco praças públicas do centro da capital.

 

Vento Sul e Chuva - uma de suas obras mais reverenciadas.

 

Em uma cidade em que ainda era possível perceber, no cotidiano, seus costumes e modos de vida, Hassis soube captar a essência de suas manifestações e transformá-la em pinturas, desenhos, fotografias, vídeos, murais e muitas outras formas de expressão. Seu olhar, porém, não se limitava ao registro daquilo que via. Havia também crítica, inquietação e posicionamento diante da realidade social e política do país, questões que lhe renderam uma certa pressão das autoridades durante os anos do regime militar.

 

Boi de Mamão - um dos desenhos executados em petit pavé na Praça XV de Novembro, criados por Hassis.

 

Hoje, quando caminhamos por Florianópolis, podemos perceber as inúmeras transformações ocorridas por aqui. A cidade cresceu, verticalizou-se de uma maneira assustadora, ganhou novos moradores, novas paisagens. O turismo e a indústria da tecnologia se transformaram em seus principais pilares econômicos, o trânsito complicado passou a fazer parte da rotina, e muitos lugares antes reconhecidos por suas características tradicionais foram profundamente transformados.

O que pensaria e o que diria Hassis de tudo isso? Talvez continuasse fazendo o que sempre fez com maestria: observar, com atenção e curiosidade, os movimentos da cidade.

Certamente ainda encontraria o mar, o vento sul, os barcos, as festas e alguns dos personagens que ajudaram a construir a identidade da Ilha. Mas talvez também percebesse aquilo que estamos deixando para trás: paisagens que desaparecem, costumes que se enfraquecem, espaços públicos que mudam radicalmente e uma cidade que, em muitos lugares, parece correr mais depressa do que consegue compreender a si mesma.

É justamente por isso que sua obra continua tão atual.

Hassis não deixou apenas imagens de uma Florianópolis que já não existe. Deixou uma maneira de olhar para a cidade e nos fazer lembrar que ela não é feita apenas de prédios, ruas e avenidas. É feita, sobretudo, de memória, de pessoas, de histórias, de trocas e de pequenas coisas que, quando deixam de existir, levam consigo uma parte de cada um de nós.

 

Procissão do Senhor dos Passos - a religiosidade expressa nas obras de Hassis. 

 

É muito importante que, no ano de seu centenário, Hassis esteja novamente tão presente na cidade.

No icônico Instituto Collaço Paulo, a exposição Hassis – Diários Afetivos reúne obras que percorrem diferentes momentos de sua produção e retomam justamente muitos desses universos que fizeram parte de seu olhar: cenas urbanas, o porto, o mar, as festas, a religiosidade, a ponte Hercílio Luz, o folclore e personagens de Florianópolis, todos presentes nesta mostra que permanece aberta até 31 de outubro.

 

Exposição Diários Afetivos - Instituto Collaço Paulo.

 

No Museu Histórico de Santa Catarina, a exposição Entre o Instante e a Eternidade apresenta 18 obras, muitas delas nunca antes mostradas ao público. São trabalhos que ampliam a compreensão sobre o artista e mostram que Hassis ainda tem muito a nos dizer. A exposição pode ser visitada até março de 2027.

A Fundação Hassis apresenta, até 30 de janeiro de 2027, o Hassis Brincante, um projeto interativo sobre a obra do artista, concebido especialmente para o público infantojuvenil, mas que pode ser vivenciado por pessoas de todas as idades. Com abertura prevista para 15 de outubro, a Fundação Cultural Badesc inaugura a exposição Antes que Amanheça, que irá propor uma leitura contemporânea da obra de Hassis. Já no Museu Victor Meirelles, entra em cartaz, em 26 de novembro, a exposição Hassis: Do Circo à Celebração Centenária.

 

Exposição Entre o Instante e a Eternidade - Museu Histórico de Santa Catarina.

 

Várias exposições, diferentes espaços, muitas décadas de distância e uma mesma cidade como ponto de encontro.

Talvez seja essa a maior contribuição de Hassis à Florianópolis de 2026: nos ensinar a olhar, a enxergar a cidade e suas constantes transformações. Olhar antes que desapareça. Olhar para aquilo que permanece, mas também para aquilo que está mudando. Olhar para a cidade não apenas com nostalgia, mas com atenção para compreendê-la; com cuidado e responsabilidade para com as futuras gerações.

Porque olhar também é uma forma de preservar. É reconhecer o valor daquilo que temos antes que o tempo o transforme apenas em lembrança. É perceber que, por trás de cada rua, cada praça, cada paisagem e cada personagem, existe uma história que ajuda a contar quem somos.

Hassis soube fazer isso como poucos. Soube olhar para Florianópolis quando ela ainda guardava, à vista de todos, muitos dos sinais de sua identidade. E talvez seja esse o convite que sua obra nos faz, cem anos depois de seu nascimento: que também saibamos olhar. Olhar com atenção. Olhar com memória. Olhar com afeto. Mais que nunca, é preciso olhar para a cidade de uma maneira que não venhamos perdê-la por completo.

 

 

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Sobre o autor

Fernando Teixeira

Fernando Teixeira

Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFSC), mestre em Geociências e Doutor em Educação Científica e Tecnológica (UFSC), natural de Florianópolis. Atualmente tem se dedicado à fotografia.


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