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Cor do ano perde força diante da casa com identidade
Filosofia do conforto e da pausa redefine o papel das tendências cromáticas nos projetos residenciais

Cor do ano perde força diante da casa com identidade
A escolha da cor do ano perde centralidade em projetos que priorizam identidade e bem-estar. (Foto: Freepik)

Publicado em 17/12/2025

Mas, afinal, para que serve mesmo a cor do ano? A pergunta não é nova e aparece, com mais ou menos força, desde 1999, quando a Pantone passou a escolher a cor que será a tendência do próximo ciclo. A de 2026, conforme anunciado no começo do mês, foi batizada como “cloud dancer”, algo como “dançarino das nuvens”, em tradução livre. Segundo a empresa, o tom é “um neutro branco elevado, cuja presença arejada funciona como um sussurro de calma e paz em um mundo barulhento”. As cores de outras marcas – sim, empresas de moda, decoração, design e fabricante de tintas, entre outras, também elegem suas próprias tendências – apontam para o este caminho. Da mesma forma, entre o que há de mais moderno em marcenaria e decoração estão os tons que acalmam, conectam e fazem a casa respirar com mais leveza ganham espaço.

Em alta os verdes suaves e mints arejados associados à limpeza, que vão até os tons de azuis clarinhos bem menos saturados do que foi moda há cinco anos. Em comum é que todos estes remetem ao frescor, bem como a paleta terrosa, que continua aparecendo com força e consistência. Essas cores acompanham uma transformação mais visível que o branco da Pantone: ao longo dos últimos anos, as casas de veraneio deixaram de ser símbolo de luxo, e o objetivo não é mais ter uma casa igual àquela que vimos na revista, daquela família que aparece na televisão. O espaço genérico perde vez e cada peça ou tom passam a ter intenção, propósito e, muitas vezes, uma história. A nova ostentação é pensar em nossa casa como espaços de pausa e conexão, é ter tempo de cozinhar com a família, de conviver sem pressa. A verdadeira tendência para 2026 é a casa com alma.

Enquanto as marcas interpretam o que julgam ouvir do mundo, o hygge (pronuncia-se algo como “rigue” ou “riuga”) vai ao encontro do indivíduo e sua forma particular de existir, à vontade e entre amigos e família, em sua própria casa. Não existe tradução literal para essa filosofia de origem dinamarquesa, mas a expressão resume um estilo de vida pensado para criar momentos simples e prazerosos, cercados de conforto, presença e conexão. Sem este conceito em mente, não há cor do ano que salve um projeto de já nascer fora de moda e bem longe do pensamento de seu tempo.

Funciona assim: se boa parte dos projetos e quase todas as “cores do ano” vão no sentido de refúgio, da busca de um pouco de paz em um mundo barulhento, em branco e azul, está tudo explicado e decidido? Está. Quer dizer, isso se os conceitos de “paz e refúgio” se revelem para você também com esses tons. Mas pode ser que não: talvez, para sua família, criar histórias e memórias tenha muito mais a ver com muita música, cores fortes e vibrantes, agitação. Para uns, o conforto precisa ter tons claros, pasteis e neutros. Para outros, o mesmo sentimento aparece em cores intensas, enquanto há ainda aqueles que procuram por tons escuros que remetam à natureza, como um verde floresta ou uma terracota.

E então, como é que faz? Se o momento é de respiro, se tudo tem de partir do branco elevado, neutro, como vai ficar a casa de quem pensa diferente? Fácil: vai ficar sem “cloud dancer” e afins. Nesse contexto, é justamente ao ignorar a cor do ano, longe do “branco vaporoso”, conforme descreve a Pantone, que um projeto pode ser considerado “dentro” das tendências.

Isso acontece porque a criação dessas cores do ano parte de um raciocínio de interpretação de um conjunto de sentimentos, o tal do “clima do momento”, que envolve moda, cultura pop, política, valores, medos e conversas que dominaram a sociedade em determinado período. É aí que mora o paradoxo: se o que se vê como tendência evidente são casas com personalidade, ocupadas por pessoas que procuram trazer mais histórias para seus objetos em vez de construírem uma casa artificial e modernista além da conta, como vamos querer que o mercado e as famílias aceitem a cor do ano como faziam há dez anos?

Mais difícil de falar do que entender, a cor do ano é o hygge: conversa diretamente com o que se defende nos projetos mais modernos, o cultivo de pequenos rituais que nos permitam “viver férias todos os dias”. A paleta correta para o ano que vem, e dos próximos, está mais para a interpretação livre e aplicação individual deste conceito do que qualquer pigmentação assinada por uma marca influente.

 

Por Priscila Poli, designer especialista em casas de férias.

 

 

 

Da redação

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