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Quanto custa uma cidade sem árvores?

Quanto custa uma cidade sem árvores?
Com o avanço dos eventos climáticos extremos, a arborização urbana ganha espaço como estratégia de adaptação. (Foto: Divulgação)

Publicado em 16/08/2026

O Brasil já aprendeu a calcular quanto custa construir uma ponte, ampliar uma avenida ou instalar uma rede de drenagem. Ainda falta, porém, dimensionar o preço que as cidades pagam quando deixam de investir em uma infraestrutura que cresce, oferece sombra, ajuda a absorver a água da chuva e reduz os efeitos do calor: as árvores.

Para o engenheiro florestal e diretor da Arboran, Charles Coelho, essa mudança de perspectiva é fundamental. “Talvez devêssemos inverter a lógica: quanto custa uma cidade sem árvores?”, questiona.

A discussão ganhou força com o lançamento, pelo Governo Federal, do edital ArborizaCidades, que destinou R$ 19 milhões para ampliar áreas verdes em periferias urbanas e enfrentar o calor extremo. Para Coelho, a iniciativa representa uma mudança importante na maneira como a arborização é incorporada às políticas públicas. Mais do que uma ação de paisagismo, o plantio de árvores passa a ser tratado como estratégia de adaptação às mudanças climáticas.

Uma conta que ainda não aparece

Os efeitos da falta de arborização estão espalhados pela rotina urbana, embora nem sempre sejam contabilizados como consequência da ausência de áreas verdes.

Eles aparecem no aumento do consumo de energia durante períodos de calor intenso, nas dificuldades provocadas por chuvas fortes, nos impactos das temperaturas extremas sobre a saúde, na necessidade de refazer calçadas, nas podas emergenciais e até na perda de produtividade de trabalhadores expostos a ambientes muito quentes.

Coelho chama atenção justamente para esses custos indiretos. Segundo ele, a sociedade costuma perguntar quanto custa plantar, podar e manter uma árvore, mas deveria considerar também “quanto custa uma cidade sem árvores”.

Essa mudança de pergunta altera a própria forma de avaliar o investimento em arborização. Quando uma árvore é considerada parte da infraestrutura urbana, seus benefícios deixam de ser apenas estéticos e passam a ser relacionados ao funcionamento e à qualidade de vida nas cidades.

Árvores também são infraestrutura

Durante décadas, a arborização urbana foi frequentemente associada ao paisagismo. O cenário, entretanto, vem mudando.

Assim como sistemas de drenagem, iluminação e mobilidade desempenham funções essenciais para as cidades, as árvores também prestam serviços ambientais. Elas ajudam a reduzir temperaturas, armazenam carbono, favorecem a infiltração da água no solo, filtram poluentes, oferecem sombra e contribuem para a biodiversidade.

Coelho defende que essa infraestrutura verde seja incorporada ao planejamento urbano de maneira integrada. Na avaliação do engenheiro florestal, árvores não devem ser vistas como elementos isolados, mas como parte de uma rede que trabalha em conjunto com as estruturas tradicionais das cidades.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também reconhece os benefícios das áreas verdes para a população. O contato com esses espaços está associado à redução de fatores de risco para doenças cardiovasculares, à melhora da saúde mental, ao estímulo à atividade física e à redução dos efeitos das ilhas de calor.

O desafio não é apenas plantar

Ampliar a cobertura vegetal, no entanto, não significa simplesmente colocar mais árvores nas ruas. O planejamento é determinante para evitar conflitos futuros.

Quando raízes danificam calçadas ou galhos entram em contato com redes elétricas, muitas vezes a árvore acaba sendo apontada como responsável pelo problema. Coelho ressalta que, em muitos casos, a origem da dificuldade está na escolha inadequada da espécie ou na falta de espaço e planejamento para que ela se desenvolva.

“É a árvore errada no lugar errado”, resume o engenheiro.

A ausência de planejamento pode gerar despesas que poderiam ser evitadas. Podas emergenciais, manutenção corretiva, reconstrução de calçadas e substituição de exemplares são alguns dos custos associados a decisões inadequadas no momento do plantio.

Por isso, segundo Coelho, a arborização precisa ser planejada desde o início, considerando características como o espaço disponível e as condições específicas de cada rua.

Verde e drenagem podem trabalhar juntos

As árvores também podem contribuir para enfrentar outro problema recorrente nas cidades: as enchentes.

Elas não substituem sistemas de drenagem nem resolvem, sozinhas, problemas urbanos históricos. Porém, a vegetação ajuda a diminuir o escoamento superficial e favorece a infiltração da água no solo, podendo reduzir a pressão sobre estruturas tradicionais de drenagem.

Na visão de Coelho, isso reforça a necessidade de deixar de tratar infraestrutura verde e infraestrutura convencional como soluções concorrentes. O potencial está justamente na combinação entre elas.

O impacto também chega à economia

Os benefícios da arborização não se limitam ao meio ambiente e à saúde. Ruas mais arborizadas podem favorecer a circulação e a permanência de pedestres, melhorar a experiência nos espaços públicos e contribuir para a valorização dos imóveis e do comércio local.

A sombra, nesse contexto, também possui valor econômico. Ambientes urbanos mais confortáveis podem estimular a ocupação das ruas e favorecer atividades comerciais, além de contribuir para tornar determinadas regiões mais atrativas.

Outro conceito que ganhou espaço no planejamento urbano internacional é a Regra 3-30-300, desenvolvida pelo pesquisador e professor de silvicultura urbana Cecil Konijnendijk. A proposta estabelece três referências: cada pessoa deveria conseguir visualizar pelo menos três árvores da janela de casa; os bairros deveriam alcançar ao menos 30% de cobertura arbórea; e todos deveriam morar a, no máximo, 300 metros de uma área verde de qualidade.

A regra sintetiza uma ideia que Coelho considera central: a distribuição das árvores também interfere no conforto térmico, na saúde, na biodiversidade, na mobilidade e na dinâmica econômica dos bairros.

Uma nova forma de medir as cidades

O calor extremo tornou ainda mais urgente essa discussão. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2024 foi o ano mais quente já registrado desde o início das medições globais, consolidando uma sequência inédita de recordes de temperatura.

Nesse cenário, soluções baseadas na natureza passaram a ganhar espaço nas estratégias de adaptação climática de diferentes governos. No Brasil, o ArborizaCidades representa um movimento nessa direção ao direcionar recursos para ampliar a cobertura vegetal, especialmente em áreas periféricas mais vulneráveis ao calor.

Para Coelho, o próximo passo é incorporar definitivamente essa lógica ao planejamento urbano. “Não basta calcular quanto custa plantar árvores. Precisamos calcular quanto custa não tê-las”, afirma.

A questão, portanto, vai além de decidir quantas árvores serão plantadas. É necessário compreender o que elas entregam à cidade e quanto custaria substituir esses serviços por soluções exclusivamente artificiais.

O concreto tem preço conhecido. A sombra, nem sempre.

Mas, em uma cidade que enfrenta calor extremo, chuvas intensas, perda de qualidade ambiental e aumento dos custos de manutenção, ignorar o valor das árvores também significa aceitar uma conta que aparece em outros lugares: na saúde, na energia, na drenagem, na produtividade, na manutenção urbana e na qualidade de vida.

 

Como Florianópolis irá participar 

 

O PMArbo Floripa é o instrumento que vai orientar o planejamento, a implantação, o manejo, a conservação e a expansão qualificada da arborização urbana do município. A elaboração do plano adequa Florianópolis ao Programa Cidades Verdes Resilientes, instituído pelo Decreto Federal nº 12.041/2024, e ao Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), estabelecido pela Portaria GM/MMA nº 1.639/2026 do Ministério do Meio Ambiente. O plano também detalha estratégias previstas no Plano Diretor de Florianópolis (LCM 482/2014). A etapa de diagnóstico segue até setembro. É possível acompanhar o andamento do plano através do site: bit.ly/pmarbofloripa.

*Confira a programação e participe!*

*Norte da Ilha* | 13 de agosto, quinta-feira, das 19h às 22h_ 
EBM Virgílio dos Reis Várzea – Rua Manoel Mancelos Moura, 170 - Canasvieiras
Bairros: Cachoeira do Bom Jesus, Ponta das Canas, Praia Brava, Vargem do Bom Jesus, Vargem Grande, Canasvieiras, Daniela, Jurerê, Praia do Forte, Ingleses, Santinho, Ratones, Vargem Pequena, Cacupé, Sambaqui e Santo Antônio de Lisboa

*Região Continental*| 18 de agosto, terça-feira, das 19h às 22h_Centro de Eventos IFSC – Rua Quatorze de Julho, 150 - Coqueiros 
Bairros: Balneário, Canto, Capoeiras, Coloninha, Estreito, Jardim Atlântico, Monte Cristo, Abraão, Bom Abrigo, Coqueiros, Itaguaçu e Jardim Capoeiras

*Região Central* | 25 de agosto, terça-feira, das 19h às 22h_ 
Jardim Botânico de Florianópolis Rodovia Admar Gonzaga, 742-782 - Itacorubi 
Bairros: Agronômica, Centro, José Mendes, Carvoeira, Córrego Grande, Itacorubi, Pantanal, Santa Mônica, Trindade, João Paulo, Monte Verde, Saco Grande, Costeira do Pirajubaé e Saco dos Limões

*Sul da Ilha* | 3 de setembro, quinta-feira, das 19h às 22h_ 
EBM Brigadeiro Eduardo Gomes - Avenida Pequeno Príncipe, 2939 - Campeche Leste 
Bairros: Alto Ribeirão, Ribeirão da Ilha, Armação, Pântano do Sul, Campeche, Morro das Pedras, Rio Tavares, Carianos e Tapera da Base

*Leste da Ilha* | 8 de setembro, terça-feira, das 19h às 22h_
EBM Acácio Garibaldi - São Thiago Rua Altamiro Barcelos Dutra, 1195 - Barra da Lagoa
Bairros: Costa da Lagoa, Lagoa da Conceição, Moçambique, Rio Vermelho e Barra da Lagoa

 

 

 

Da redação

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