Cannabis medicinal ganha respaldo científico em SC
Um artigo científico publicado por pesquisadores brasileiros comprovou a eficácia e a segurança de óleos ricos em canabidiol (CBD) ao tratamento de enxaqueca. A pesquisa indica que o óleo canábico proporciona melhora significativa na qualidade do sono, percepção de bem-estar e na redução da incapacidade gerada pela condição neurológica que afeta mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A pesquisa, publicada na revista científica internacional Scilight, foi desenvolvida pelo Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC), da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). O estudo revela que os efeitos colaterais causados pelos tratamentos convencionais à enxaqueca são mais danosos ao organismo humano do que o óleo de cannabis.
"Os tratamentos convencionais para enxaqueca podem causar alterações cognitivas, perda de memória, sonolência, ganho de peso, tontura, alterações gastrointestinais e, em alguns casos, mais dores de cabeça por uso excessivo de medicação", explica o médico e doutorando Linério Novais, um dos autores da pesquisa. "No estudo, o óleo de cannabis rico em CBD apresentou efeitos colaterais em geral leves e transitórios, como sonolência, cansaço, boca seca, ansiedade leve e aumento do apetite, principalmente no início do uso, sem prejudicar a funcionalidade do indivíduo. Observamos melhora clínica relevante, com redução do impacto da enxaqueca".
No Brasil, a enxaqueca (também conhecida como migrânea) atinge 34 milhões de brasileiros, de acordo com a Associação Nacional Medicina do Trabalho (ANAM). Segundo dados da Global Burden of Disease Study, a doença afeta principalmente mulheres entre 15 e 49 anos - nesta faixa etária é a principal causa de incapacidade. Trabalhadores com enxaqueca têm até 48% de perda em produtividade.
"É plausível pensar em impactos econômicos positivos associados ao maior acesso a medicamentos à base de cannabis. Ao melhorar sintomas como dor, sono e funcionalidade, tratamentos mais eficazes tendem a reduzir faltas ao trabalho, licenças médicas prolongadas e uso excessivo de serviços de urgência e medicamentos de alto custo, o que se traduz em ganhos econômicos tanto para o sistema de saúde quanto para a sociedade como um todo", argumenta o professor e neurocientista Rafael Bittencourt, coordenador do LabNeC e também autor da pesquisa. "Nesse sentido, a cannabis medicinal pode deixar de ser vista apenas como uma alternativa terapêutica individual e passar a ser compreendida como uma estratégia com relevância em saúde pública e economia da saúde".
No entanto, por mais que pesquisas atestem a eficácia e a segurança da cannabis medicinal não apenas contra a enxaqueca, ainda é preciso avançar cientificamente para que esse tipo de terapia possa ser adotada na saúde pública. Ainda são necessários ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, com períodos mais longos de acompanhamento para uma validação da segurança em uso prolongado.
"Os resultados atuais são promissores e sustentam o avanço das pesquisas, mas o uso em larga escala deve ser sempre acompanhado de rigor científico, monitoramento clínico e base regulatória adequada, garantindo segurança, qualidade e acesso responsável. Esse cenário tende a evoluir nos próximos anos, à medida que aumenta o número de pesquisas clínicas envolvendo a cannabis medicinal, impulsionadas tanto pelo interesse científico quanto pela demanda de pacientes com quadros crônicos e refratários aos tratamentos convencionais", afirma Bittencourt.
O óleo canábico
A pesquisa utilizou dois tipos de óleos canábicos: um industrial e outro produzido pela Santa Cannabis, associação de pacientes que produz o medicamento 100% em Santa Catarina. O estudo indicou que não houve diferenças significativas entre os óleos, o que atesta a qualidade farmacêutica do produto catarinense.
"Não foram observadas diferenças significativas entre o óleo industrializado e o óleo produzido pela associação Santa Cannabis. Isso indica que produtos produzidos por associações de pacientes, quando elaborados de forma responsável, com controle de qualidade e prescritos com acompanhamento médico, podem apresentar semelhante aos produtos industrializados, sem perda de segurança e eficácia", diz Novais.
A Santa Cannabis atende, há 7 anos, mais de 8 mil pacientes em todo o País, oferecendo suporte jurídico, médico e psicossocial. Desde 2023, possui autorização da Justiça Federal para cultivar e produzir óleo destinado aos associados.
"As associações canábicas têm hoje uma importância central para a saúde brasileira, sob múltiplas dimensões. Do ponto de vista assistencial, elas viabilizam o acesso ao tratamento para milhares de pessoas. Do ponto de vista científico, grande parte das pesquisas brasileiras com cannabis medicinal só se torna possível graças à atuação dessas organizações, que fornecem os óleos, apoiam pacientes e permitem a observação sistemática de dados do mundo real. Além disso, as associações exercem um papel educativo extremamente relevante: promovem informação qualificada, orientam pacientes e familiares e ajudam a combater estigmas históricos em torno da cannabis medicinal", diz Bittencourt.
Enquanto as pesquisas científicas e a demanda pelo uso medicinal da cannabis avançam, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamentou neste mês o uso da cannabis medicinal no Brasil. As novas regras ao cultivo e pesquisa de cannabis começam a valer a partir de 4 de agosto. A deliberação e aprovação da Anvisa foi determinada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que definiu em novembro de 2024 a legalidade da produção de cannabis "para fins exclusivamente medicinais e/ou farmacêuticos atrelados à proteção do direito à saúde).
"A regulamentação da cannabis medicinal deve ter impacto relevante na saúde pública, considerando seu potencial terapêutico em diversas condições prevalentes e incapacitantes. A distribuição de óleo de cannabis pelo SUS é imprescindível, especialmente para pacientes com quadros graves e refratários. É importante uma regulamentação adequada, critérios claros de indicação, protocolos clínicos bem definidos e acompanhamento médico. Nosso estudo contribui como um passo inicial para a construção dessas evidências e para o debate técnico sobre a incorporação dessa terapia no sistema público de saúde", defende Novais.
Veja o artigo científico aqui.
Da redação
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