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Filho do coração
Casal divide sua experiência com a adoção do filho e revela que a escolha traz aprendizados diários

“O Gabriel é nosso filho de alma. Ele é muito parecido com a gente, em todos os sentidos. Com o pai ele é até parecido fisicamente”, conta Vânia (Fotos: Larissa Gaspar)

Publicado em 03/08/2017

Larissa Gaspar

“Pai, esses são a gente, né?”. Foi assim que o pequeno Gabriel Bertin Reis da Silva, naquela época com três anos de idade, reagiu quando o pai terminou de contar uma história lúdica sobre sua adoção. O conto era sobre um bebê nascido num lugar que não havia pais ou mães, enquanto numa terra próxima eles existiam, mas sem nenhum bebê. No final, a família se encontra e é feliz para sempre. A reação do menino surpreendeu Durval da Silva Neto, de 42 anos, e desde então ele não parou de aprender com o filho.

A instrução para tratar a adoção de uma forma lúdica foi recomendação da assistente social que atendeu Durval e a esposa - a administradora hospitalar Vânia Marta Bertin da Silva, de 51 anos -, nos primeiros anos de vida de Gabriel. A família sempre abordou o tema com naturalidade. “Ele cresceu sabendo que é adotado. Aos poucos, foi assimilando e naquela noite, pediu para contar mais um pedaço da história e me perguntou isso. Foi muito bacana”, relembra.

Casados desde 1997, Vânia e Durval dividiam o sonho de serem pais, mas foi só em 2001 que decidiram que era a hora de aumentar a família. Ela fez exames médicos e descobriu que possuía o gene do traço falciforme. Esta condição genética não é considerada doença, mas as pessoas que a possuem devem ser informadas sobre as implicações dessa condição para a saúde dos possíveis filhos. Durval possuía uma outra condição genética - já conhecida por ele - o traço talassêmico, que produz um tipo de anemia leve. O problema era que estes dois traços combinados poderia gerar uma criança com grande chances de ter leucemia. Eles preferiram não arriscar. 

A adoção foi o melhor caminho. “Eu sempre quis adotar. Para nós, nunca foi uma barreira”, relata Vânia. O casal se informou sobre o processo na Vara de Infância e Juventude na cidade onde morava, em Campinas (São Paulo), mas o processo não deu resultado.  Em 2003 entraram na fila de adoção da cidade de Guarapuava, no Paraná, por indicação de um parente que adotara uma criança no mesmo lugar.

Em Guarapuava, a preferência era para as pessoas nascidas no estado. “Como nós éramos de Campinas, nos colocaram numa fila paralela, que demorou cinco anos. Quando me ligaram, eu nem sabia mais do que se tratava”, confessa Durval. Em 2003, ainda não existia o Cadastro Nacional de Adoção, que foi criado com Lei da Adoção de 2009. Atualmente os pretendentes à adoção só podem se cadastrar na cidade de residência. 

VIDA NOVA

Engenheiro elétrico, Durval estava morando sozinho em Florianópolis desde 2008, devido a uma oportunidade profissional.  A esposa preferiu não se mudar para a Ilha da Magia até conseguir um emprego, uma vez que possuía uma carreira solidificada num hospital de Campinas. Depois de dois anos vivendo num relacionamento a distância, o casal tomou uma decisão: se Vânia não encontrasse um emprego até o final de 2008, o marido voltaria a morar na cidade paulista. O que eles não imaginavam era que, em 04 de junho daquele ano, receberiam uma ligação que mudaria a vida deles.

Durval estava trabalhando quando a assistente social o contatou para avisar que havia um bebê para adoção. “Eu respondi ‘beleza’ e desliguei. Depois, a ficha caiu e  retornei para me informar melhor. Foi bem engraçado”, brinca. Ele telefonou para a esposa para contar a novidade e os dois choraram juntos: finalmente seriam pais. No dia seguinte, deveriam estar em Guarapuava para conhecer o recém nascido e dar andamento no processo.

Primeiro encontro: Para Durval, ser pai é um aprendizado diário. ““ Eu quero que o Gabriel seja muito feliz na vida dele”

O filho era Gabriel, um bebê que nasceu prematuro de 29 semanas e passou um tempo internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “A gente não sabia o prognóstico, mas nós íamos abraçar o que viesse. Solicitamos todos os exames e assumimos as despesas do tratamento dele”, conta Vânia. Em 5 de junho de 2008, o casal conhecia o filho. Quando olharam para o rosto pequenino do bebê souberam que ele deveria permanecer com o nome dado pela mãe biológica: Gabriel. Não apenas porque o menino tinha “uma cara de Gabriel”, mas porque queriam preservar a história dele”, explica Durval.

FAMÍLIA COMPLETA

O que o casal não conseguiu em dois anos, aconteceu dias após a chegada de Gabriel:  eles foram buscá-lo no dia 30 de junho e, em menos de dois meses, Vânia estava trabalhando numa clínica de Florianópolis. “Eu mudei de cidade, de emprego, ganhei um filho e voltei a conviver com meu marido, pois estávamos sem viver o cotidiano desde 2007. Foi uma reviravolta”, relembra Vânia com um sorriso no rosto. 

Há quase 10 anos vivendo na Ilha da Magia, a família está estabelecida. Gabriel, atualmente com 8 anos, os surpreende todos os dias com algum feito ou história. A mais recente sobre sua adoção foi quando ocorreu uma conversa sobre tema na escola. Gabriel contou para os colegas da turma do 3º ano que era adotado. Durval relembra que ao buscar o filho no final da tarde, a professora o abordou. “Ela disse que o Gabriel deixou as crianças agitadas ao relatar que ‘ser adotado é mó legal’. Foi divertido”.

SER PAI

Quando está com o pai, Gabriel gosta de praticar esportes: eles jogam futebol, basquete, pebolim, ping-pong e sinuca. “À noite, a gente lê livros. Eu leio só com meu pai, com a mãe às vezes”. Durval acredita que não seria uma pessoa completa se não tivesse a experiência de ser pai. “É uma das coisas que me faz ser melhor. Quando eu estou numa situação difícil, o Gabriel me faz pensar em coisas boas para tirar daquilo”, conta.

Vânia descreve o marido como “um excelente pai”, que muitas vezes até superprotege o filho. “Como nós temos uma cumplicidade legal, eu nunca contraponho nada que ele fala e ele também não. Como pai, ele é maravilhoso. Ele é participativo, ele brinca, é preocupado”. Gabriel, por sua vez, revela que ama o pai ‘mais que os eletrônicos’. “Obrigado, filhote. Isso significa muita coisa, pode apostar”, explica Durval aos risos.

PROGRAMA DE ADOÇÃO

Após habilitados em seus estados, os pretendentes à adoção são inseridos no Cadastro Nacional (CNA), organizado pelo Conselho Nacional da Justiça. Os pretendentes residentes em Santa Catarina já figuram no CNA e concorrem à adoção em qualquer estado da Federação.

Os pretendentes à adoção devem participar de cursos de capacitação e outras atividades como curso de reflexões, partilha de experiências e vivências sócio afetivas. O objetivo é apresentar a realidade das crianças que efetivamente precisam ser adotadas, que são aquelas com idades entre 08 e 15 anos, grupos de irmãos, que vivem em serviços de acolhimento, já destituídas do Poder Familiar, mas que não tem ninguém que as queira. O curso é prevista pela nova Lei de Adoção, que traz em seu artigo 197-C, § 1º, a obrigatoriedade de participação dos pretendentes nessa modalidade de curso, como requisito para encaminhamento do processo de inscrição para adoção.