Lispector além das palavras, por Luzia Almeida
Um conto sobre paixão pela leitura e a perversidade humana

“Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam”: este é o estado de espírito da personagem com a promessa de ter o livro. Observe as imagens criadas por Clarice e entenda sua paixão pela leitura. Trata-se de um conto com duas personagens num quadro absurdo de maldade e de humilhação. Elas se distanciam numa linha horizontal, como num cabo de guerra: uma na ponta da hierarquia das posses e a outra na ponta da submissão da paixão. Entenda o enredo e cresça com a dinâmica literária que promove personagens a verdadeiros perfis humanos e se emocione na corrida da perseverança e da resiliência de quem não desiste.
Quem já leu o conto “Felicidade clandestina” de Clarice Lispector, publicado em 1971, sabe o que é sofrer por causa de um livro. Quem ainda não leu, precisa ler e entender essa paixão que pode levar à dor e à humilhação: dor moral, mas dor de carvalho que não se dobra diante da carranca da perversidade; e humilhação apaixonada que suporta palavras enganadoras.
Era uma menina apaixonada por livros e era uma menina má, ambas da mesma escola. A ruiva, que era má, tinha o pai dono de livraria. Essa ruiva lembra muito a dona Inácia do conto “Negrinha” de Monteiro Lobato: “A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau”. O bacalhau era um chicote de couro usado para castigar os escravos, mas a menina má não tinha um bacalhau, tinha ideias malignas pra fazer corar até a tal dona Inácia. “Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia”. Então a malvada disse que tinha o livro “As Reinações de Narizinho” e que emprestaria pra colega no dia seguinte. Pronto! A felicidade, pra menina, era o livro de Monteiro Lobato. Mas... quem disse?!...
No dia seguinte, a menina foi correndo até a casa da colega que “Olhando bem para os meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo.” E essa enganação aconteceu por muitos dias seguintes, porque “O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico”. Essas construções da Clarice acabam com a gente: como é que um plano pode ser “tranquilo” e “diabólico”? A ruivinha tinha tranquilidade para fazer a colega padecer a cada dia na expectativa de ter o livro emprestado.
Paixão! As palavras não são totalmente capazes de descrever sentimentos. Elas precisam se embolar umas com as outras num ajuste de orquestra para dar um tom afinado e significativo. Os sentimentos não se materializam, eles são feitos de impulsos cardíacos e as palavras são teimosas e de difícil domínio: elas não acompanham os batimentos. “Lutar com palavras é a luta mais vã”, como disse acertadamente Drummond.
Nesse conto metalinguístico, Lispector conjuga o coração para nos falar sobre sua paixão pela leitura. É claro que os batimentos do conto não são suficientes para todos os impulsos cardíacos, mas, pelo menos, são suficientes para formar uma orquestra clandestina de felicidade que a leitura pode reger.
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Sobre o autor

Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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