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Produção orgânica e biodinâmica

Uvas produzidas sob o conceito orgânico vem ganhando destaque pelo mundo

Publicado em 12/04/2013

Você é o que você come, mas também o que bebe. Essa é uma das prerrogativas de uma nova onda de produtores de vinho ao redor do mundo para transformar a produção de uvas e, consequentemente de vinho, em orgânico ou até mesmo biodinâmico.

Nos primórdios das produções agrícolas e também nos primeiros vinhos produzidos ao longo dos séculos, o homem não tinha conhecimento sobre as diferentes influências que havia sobre uma produção, principalmente quando falamos na parte de defensores agrícolas, fungicidas e na microbiologia. Tudo foi evoluindo a partir do conhecimento empírico, observando o ciclo natural, a influência do clima, solo e até mesmo dos astros. Os vinhos eram produzidos de forma rústica, aromatizados, “vedados” com óleo ou resina de árvores e não havia garrafas, rolha e muito menos o anidrido sulfuroso, o conservante mais utilizado no meio vinícola.

O consumo de produtos “naturais” com conceito de produção orgânica vem ganhando destaque pelo mundo com as pessoas cada vez mais preocupadas com o passivo deixado pelo uso de defensores e produtos químicos. Não seria diferente no vinho. Muitos produtores estão voltando aos princípios naturais da produção e se adaptando ao movimento do vinho “natural”.
Uma das vertentes mais interessantes e, também, controversas, é a filosofia do biodinâmico, introduzida a partir das ideias e da filosofia antroposófica de Rudolf Steiner, filósofo e esotérico austríaco que sugeriu o conceito da dinâmica da vida, dando ênfase em dar vida aos solos que serão utilizados para o cultivo, nesse caso da uva, ao contrário de solos estéreis pelo uso de defensores agrícolas. O início de tudo se dá com o cultivo orgânico, sem utilizar qualquer aditivo que não seja natural. Ele vê uma área de plantio como um sistema vivo e coeso, leva em conta o equilíbrio entre as forças materiais da terra e as forças energéticas dos astros, criando um ecossistema equilibrado.

Pode parecer loucura, uma seita, mas os produtores biodinâmicos afirmam conseguir observar claramente uma plantação mais viva, mais feliz, gerando vinhos mais típicos e exprimindo melhor o local onde é produzido.

Entre as práticas do biodinâmico estão os preparos naturais, que são numerados de 500 a 508 cada um, identificando um composto diferente, sendo os dois primeiros borrifados nas folhas para melhoras seu crescimento. O preparo 501, por exemplo, é uma mistura de quartzo moído com água da chuva colocado dentro de um chifre de boi, que é então enterrado na primavera e desenterrado no outono quando, então, a mistura é borrifada na plantação.

Os seguintes são responsáveis por inocular outros compostos e incluem misturas tão ou mais curiosas envolvendo cascas de carvalho, camomila e até mesmo urtiga. Entre seus objetivos estão a melhora da absorção de nutrientes pelas raízes, eliminação de fungos e pragas e estímulo da fotossíntese. Finalmente, um calendário astrológico é seguido e respeitado, no qual a colheita, vinificação e engarrafamento do vinho se dão em fases corretas da lua, por exemplo.

Sem dúvida, são práticas que deixam qualquer cético, com sérias dúvidas, mas o fato é que alguns dos grandes vinhos do mundo são produzidos assim. Os produtores justificam sua escolha afirmando que tais vinhos são mais vibrantes e de gostos mais intensos, além de que seus métodos tendem a resultar em uvas com a maturação mais completa e correta, na qual o nível de açúcar ideal é alcançado com a maturação fisiológica da uva.

Pontos negativos existem. Alguns produtores mais céticos acreditam que alguns custos não compensam essa filosofia. Um enólogo que trabalhava para uma vinícola francesa transformou a produção em biodinâmica e o gasto com diesel aumentou quase dez vezes por ser obrigado a passar muito mais com o trator pelos vinhedos para aplicar os compostos.

Enfim, como tudo, devemos observar e ponderar os pontos positivos. O fato é que temos vinhos bons e ruins produzidos dessa maneira, exatamente como os que adotam as práticas mais comuns de produção.


Sobre o autor

Eduardo Machado Araujo

Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers


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