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SC entra no mapa dos rótulos italianos
Quatro vinícolas famosas do país europeu antecipam tendências no consumo atual de vinhos e espumantes

O evento aconteceu em Florianópolis e teve orientação dos produtores, que são descendentes dos fundadores dos estabelecimentos (Foto: Fernando Willadino)

Publicado em 06/06/2017

Um dos maiores produtores de vinhos do mundo, a Itália representa 10% da importação dessa bebida no Brasil. E foi com 34 dos melhores rótulos de vinhos e espumantes produzidos no país europeu que a Decanter, eleita a Importadora do Ano na edição anual de vinhos da revista Gula, a principal do segmento, abriu a temporada de degustações desse outono-inverno na Ilha. Pela primeira vez Santa Catarina recebeu o circuito chamado “The Fantastic Four”, uma wine class e degustação comentada com os descendentes das seletas marcas Ferrari, Umani Ronchi, Rocca Delle Macìe e Medici Ermete.

O diferencial do circuito para o seleto grupo de sommeliers, chefs de cozinha e amantes da bebida foi a oportunidade de conhecer a origem e história de quatro das mais celebradas vinícolas italianas e degustar seus rótulos mais apreciados no mundo todo. O evento aconteceu no dia 24 de maio, em Florianópolis e teve orientação dos próprios produtores, Massimiliano Giacomini, Sérgio Zingarelli, Alberto Medici e Michelle Bernetti, que são descendentes dos fundadores dos estabelecimentos.

 

Além disso, a degustação comentada trouxe em primeira mão algumas tendências atuais no mundo do vinho. “Está muito em destaque hoje a procura por rótulos com pouca ou nenhuma passagem pela madeira, valorizando as características da variedade e do terroir. Isso é marcante na grande maioria dos vinhos europeus, especialmente na Itália”, explica a sommelière Regina Essenburg, anfitriã do circuito junto com Adolar Hermann, fundador da Decanter, que tem exclusividade na importação dos rótulos destas vinícolas.

Nessa linha, Regina indica os vinhos da Rocca Delle Macìe, da região da Toscana, que têm passagem pela madeira de forma equilibrada e por isso apresentam muita sutileza no olfato e no sabor. Na Itália os vinhos não são classificados pela uva, mas sim pela região produtora, pois cada uma trabalha com variedades específicas de cada terroir.

Vinhos orgânicos e biodinâmicos

Outra grande tendência mundial presente no evento foram os vinhos orgânicos e os biodinâmicos. A Vinícola Ferrari, da região Trentino, é conhecida no mundo todo também por usar somente insumos orgânicos. Os biodinâmicos, que combinam as técnicas de cultivo com o terroir, estiveram presentes nos rótulos da Umani Ronchi, da região do Marche. “Mesmo na vitivinicultora tradicional, alguns produtores utilizam o manejo integrado das pragas, dentro da filosofia de redução de uso de agrotóxicos”, aponta Regina. A prática é adotada pela Medice Ermete, da região da Emilia Romagna.

Melhor espumante da Itália

Maior nome em espumantes na Itália, a Ferrari serve eventos especiais no mundo todo, como na cerimônia do Oscar e na entrega do Prêmio Nobel, e a vinícola também assina a publicidade e a bebida das principais competições automobilísticas mundiais. Com o status de mito italiano, assim como a famosa scuderia homônima, a vinícola ganhou destaque na degustação comentada com o Ferrari Perlé Nero 2007, eleito “o melhor espumante fora da Champagne” (região célebre pela produção do champagne na França) e o “melhor espumante da Itália” no mais importante concurso mundial de espumantes.

Alberto Medici, da Medici Ermete impressionou os participantes ao apresentar dois rótulos de Lambrusco seco, um elaborado pelo método charmat e outro pelo método champenoise

“Em uma degustação de alto nível, não é fácil eleger um rótulo entre tantos que surpreenderam. Mas o meu eleito é o Perlé Nero 2007 pelo prazer que esse 'bollicini' me causa”, indica a Presidente da Associação Brasileira de Sommeliers em Santa Catarina (ABS/SC), Néa Silveira. “O visual já nos faz salivar, com sua cor dourada, perlage finíssima e abundante. Um olfato exuberante de frutas cítricas, amêndoas, brioche e tostado, típicos dos grandes espumantes. Na boca se releva complexo, com mineralidade perfeita, equilibrando acidez refrescante e envolvente cremosidade. Perfeito”, descreve Néa. O rótulo é feito 100% com uvas Pinot Noir e tem amadurecimento de 72 meses sobre as leveduras na garrafa.

Itane Borges, sommelière da Vinícola Thera, de Bom Retiro, também deu especial atenção na degustação ao espumante da Ferrari. Mas ela tem ainda outra sugestão: o toscano Ser Gioveto Rosso 2010, da Rocca Delle Macìe, um exemplo de vinho com perfil mais moderno. “Encorpado e equilibrado, de cor rubi intenso, com notas de frutas vermelhas compotadas e especiarias doces, é frutado na boca, com acidez presente e agradável, taninos macios e final longo”, descreve Itane. “A Toscana é uma das regões vinícolas mais importantes, conhecidas e estudadas no mundo. Produz vinhos autênticos e com tipicidade”, complementa a sommelière.

Lambrusco com a feijoada

A crescente cultura do vinho no Brasil vem quebrando paradigmas. “A fama pejorativa do vinho alemão da garrafa azul, por exemplo, foi afastada com a entrada no mercado nacional de grandes vinhos alemães, elegantes e surpreendentes nos seus diferentes estilos”, lembra a sommelière Regina Essenburg. Pois agora é a vez dos lambruscos se transformarem em cisnes. Conhecido até pouco tempo por ser muito doce e sem expressão, o Lambrusco tem forte tradição na Itália, mas no Brasil só chegavam os exemplares mais comuns.

Alberto Medici, da Medici Ermete, surpreendeu e encantou os participantes do circuito “The Fantastic Four” com lambruscos de excelente qualidade. “Ele nos apresentou Lambruscos extraordinários, cheios de fruta e frescor, com fantástico equilíbrio entre açúcar e acidez. Há exemplares nobres, inclusive com longas maturações e nos mesmos processos de produção de espumantes, descreve Regina.

Tanto Regina quanto Néa Silveira têm uma dica que garantem ser certeira para o frio: degustar um bom Lambursco italiano com a nossa tradicional feijoada. “É uma harmonização pouco conhecida e experimentada, mas que eu gosto muito. A harmonização é perfeita, depois dela, só uma soneca para fechar o sábado”, sugere a Presidente da ABS/SC. “Para quem se permite, o mundo do vinho está cheio de surpresas”, completa Regina.

Da redação