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O futuro do BRT
Professor do Observatório de Mobilidade Urbana da UFSC fala sobre obras do anel viário de Florianópolis

Werner possui doutorado pela Australian National University e suas áreas de interesse envolvem controle de tráfego urbano (Foto: Divulgação)

Publicado em 11/04/2017

A Prefeitura de Florianópolis iniciou no final de março as obras de construção do corredor exclusivo para o "Rapidão", sistema de ônibus BRT, que faz parte da implantação do anel viário, tido como a maior intervenção de mobilidade urbana focada no transporte público coletivo da história da Capital. Por conta disso, o trânsito nas proximidades da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passam por modificação temporária.  

O Imagem da Ilha conversou com o professor do Observatório da Mobilidade Urbana da UFSC, Werner Kraus, sobre a importância das obras do anel viário para o futuro da mobilidade urbana de Florianópolis. Confira:

Imagem da Ilha: Qual a importância desta obra para a cidade?

Werner Kraus: O corredor de BRT do Anel Viário Central prioriza, pela primeira vez no município de Florianópolis, o transporte público por ônibus. Com o corredor, haverá redução expressiva de tempo de viagem dos ônibus, melhorando as condições de quem já usa e de quem quer usar o transporte público.  

Esta não é apenas uma medida paliativa para resolver o problema da mobilidade urbana em Florianópolis, tendo em vista que o número de faixas para o tráfego de veículos irá diminuir pela metade?

As faixas para automóvel irão até aumentar, no caso da R. Dep. Antônio Edu Vieira. Nos demais casos, permanece o número atual. Infelizmente, ainda vivemos sob a "ditadura do automóvel", segundo a qual este modo insustentável de transporte urbano continua prevalecendo no imaginário dos tomadores de decisão. Em lugares do mundo com cidades parecidas com as nossas (Europa, p.ex.), a opção das políticas públicas de mobilidade em prol do transporte público coletivo são inequívocas, trazendo cada vez mais restrições ao uso do automóvel nos centros urbanos. 

Que outras ações/obras são necessárias como forma de melhorar a mobilidade urbana de Florianópolis - uma das piores do país?

A principal ação é integrar o transporte público com toda a região metropolitana em um só sistema. Hoje, os congestionamentos no acesso à Ilha pela manhã e no acesso ao Continente à tarde são causados pela falta de serviço decente integrando os diversos pontos da região. É preciso reconhecer que pelo menos quatro municípios estão conurbados a ponto de caracterizarem uma só cidade: Biguaçu, Florianópolis, Palhoça e São José. O serviço de transporte público nesta cidade metropolitana tem de ser reflexo natural do nível de integração dos municípios que a constituem. 

Além disso, falava-se muito de uma "quarta ponte". Pois agora que a "primeira ponte" está prestes a voltar a fazer parte do sistema de mobilidade regional, é preciso garantir uso exclusivo dela ao transporte não motorizado (pedestres, ciclousuários) e ao transporte público coletivo. Somente desta forma será dado um sinal claro de que a região metropolitana da Grande Florianópolis aposta em soluções sustentáveis para a mobilidade urbana.   

Após a construção do BRT, o trânsito irá realmente melhorar, visto que a quantidade de carros que transitam no entorno da UFSC é muito grande?

O trânsito para os automóveis vai ficar melhor organizado, porém os temos de viagem para os motoristas e usuários do automóvel podem permanecer iguais se ninguém trocá-lo pelo ônibus. Para este problema, não há solução. A grande questão é o ganho para o transporte público coletivo. Haverá melhoria expressiva dentro do corredor, com o potencial de atração de usuários do automóvel para o ônibus. Se isso ocorrer, daí até o trânsito de automóveis pode até melhorar um pouco. Mas certamente irá melhorar bem mais para o usuário do ônibus, que é a prioridade de uma política inteligente de mobilidade. 

O que as pesquisas realizadas pelo Observatório da Mobilidade Urbana da UFSC mostraram em relação a "cultura do carro" de Florianópolis? O que falta para que elas usem menos automóvel próprio e passem a usar o transporte público? 

Não só em Florianópolis, mas em outras cidades da região metropolitana, principalmente em São José. Para mudar essa realidade, é preciso uma combinação de oferta de melhor serviço de transporte coletivo com medidas restritivas ao automóvel, como redução das vagas de estacionamento nas vias públicas. Assim, haveria espaço para ampliação das calçadas (hoje via de regra muito ruins na região) e implantação de ciclovias, transformando a região em ambiente para pessoas, e não para o automóvel. 

O sistema de rodízio municipal de veículos seria uma solução para o trânsito da cidade? Por quê? Como poderia ser feito isso?

É uma medida pontual que pode trazer algum benefício. De todo modo, antes de ser implantada é preciso haver transporte público de qualidade: mais itinerários, mais horários, tarifa reduzida e tempo de viagem curto. Assim, os cidadãos passariam a contar com alternativa real ao transporte individual motorizado (aí incluídas as motos, que tantas vítimas de acidentes têm causado).

 

 

Da Redação